01/03/22

Mesm'Outro   -   isto não um poema 

1 . 

Escrever: - conto... um poema, uma prosa, crônica ou não 
textos - tantos e tentos ... e seus possíveis... 

Pintar: - ouvir da parede um afresco, ouver de uma tela 
tintada todo um quadro instado ao olhar...  ou ver vir dela. 

Esculpir: - moldar o barro, o gesso - fisionômicas de rostos velados 
com olhos sem mirada, bustos, troncos, corporeidades 
de olhares, posturas - gestos que almejam expressar algo ... 

Compor: - música, sonoridades, toques sonoros de notificação 
mídias sonoras sintetizadas, notações iconográficas que ao interprete 
instruído viram musicalidades permeadas de nuances sensórios. 

Computar: - dados e mais dados - dado a com-sumar, lograr 
e logar em algo que ritme e capture alguém a com-sumir. 

2 . 

O dito - aquém ou além dele mesmo (?)  

O digo por’entre aterra - seria dádiva - mas que entre dívidas 
e dúvidas pode até ser asa ou ser arma - que nos poucos talvez 
diga algo e quando diz- diz-diz-se e ao se desocultar subtrai 
vaga e vaga por sobre a mira do dito quando nos alcança 
caso alcance - adentra, caminha por’através e no toque 
brota, intenta e fere e em face às fases o roçar o signo-sino 
ao blem-blom do digo quando emerge no pouco de tudo 
que capta e diz é cadinho por cadinho que daqui e dali 
pode até aqui ressoar e quando se achega, pode até desatar 
essas tantas amarras essas travas - couraças instaladas 
grilhões de um tempo que rompe (?) e talvez diga diga 
o digo e nada, nada mais há a dizer - mas há - sempre há.  

Nada diz - nada a dizer - (?) - digo - coisa alguma que se diga dá liga 
e vai ou pode vir por’entre ou par’além - esse produto do oportuno 
que até pode romper o que vem de um instante que estala 
no momento que se deita à sentença e quando já aqui (in)versa 
camufla em face ao memento (lembrança) que se instala no reverso 
que versa e dita ao tento que tenta e tenta e tenta e afoito dialoga (?)  

ié só por - talvez - que se deixa traduzir, e mesmo assim quando traduz 
trai, trai e imantado tradiz ao que atraiu e do mesmo num outro se achega 
chega e se deixa dizer o que de si traz daquilo que diz e a isso iça e pode 
até dar alguma liga ao que do pré-existente parelha, se aparelham 
em coisas e mais coisas e por (in)puro que seja ou por puro pavor 
que do mesmo vá ao caos que do leque - entrópico - que se abre 
se adéquam e cristaliza gerando grades - jorros de regras ditas 
civilizatórias - regulando tantos e tontos reativas, ações falseadas 
que a torta e a direita a-destram em intermináveis métodos 
de controle à destros e sinistros (em que a origem fica perdida 
na história) - produzindo largos e longos estreitamentos de idéias 
e ideais chagas condicionantes e máculas de vivências de linguagem.  

E é na medida da pega, na cata que do mesmo - mesmo que de empréstimo 
é que quase - sempre - sujeitam o sujeito e o objeto - a-destram em catar 
das réstias o que resta de algo e dos ritmos que por fim regem e em massa 
impõem dados, dados e mais dados que aos trancos e barrancos por aqui 
passam e do mesmo que aos pedaços os percalços os dê - de um dado 
uma imagem, um som, um texto, uma voz que passe e talvez, devido 
as escolhas no-aqui, do-que-aqui expresse algo e nesse algo alcance 
mesmo por acidente - diga e par’além, diga algo e seja dito e que 
do que se diz, diga - para que o digo então baixe e se (a)presente. 

Na imersão do instante... - ... que diz ... 

O dito – dito(?) luminoso - ins-pira, com-diz, in-duz e produz 
e ao produzir, ex-pira, exala, espalha doçuras, ranços e ira 
e no mergulho pode anunciar por sobre a malha do sutil 
que emerge e ainda fora do verbal, sujeita o tempo e o poema 
ao ser dito captura-o e traz pra de fora e ao dizê-lo o que vem 
chega de súbito, instaura, in-tenta e até pode dar livras ou cárceres 
e ao vê-lo – mente - inventa... Ao falar, olhar, ao dizer, como diz 
livrar-se disso tudo, livrar-se do livro ao vê-lo, ouvir dele, lê-lo 
viver em voz alta o que se lê, ouve ou vê das coisas e não coisas 
do ocaso que acaso aqui se tocam... - ié tão frágil, tão frágil 
o que aqui insiste, ex-siste e intenta.  - dada a existência.  

3 . 

O existir intenta (?) insiste - dada à existência - está aqui 
sempre esteve - mas ainda não vive e no viés de tudo 
que move e se pronuncia fatalmente vive e morre.  

Suposto o espaço se deita ao linear e dá-se em tempo 
tempo que escapa e passo a passo passa e se espaça 
em tempo - tempo de antes, tempo de depois (?) e agora 
agora-agora, tempo que imprime, que oprime e ilude.  

A vigorar... o in-sistir in-tenta - dado a ex-sistência   

Se-se privam (d)as significâncias - (in)voluntária os sentidos 
se embotam emoldurando o mesmo e o outro - mesm’outro 
a palavra colapsa ao pronunciar e em ondas os sentidos 
turvam as águas, não alenta e o sopro que roça a língua 
oxida, aterra a entidade viva que entra em com-bate 
e submerge ao subterrâneo da linguagem, face às fases 
do dito que brotam arremessando e se remetem a um outro 
que atabalhoada-mente e não conecta, não interagem 
não dialoga e se embolam, diabolam, sem nada, nada 
com-par-trilham e erguem-se muros, em auto-anulação 
adiam e re-jeitam-se e nada, nada tocam, ausência e deserto 
labirintos sem guia e o que pode vir da língua sobrevêm 
ao ente-vivo, inana e nada relaciona, não age, nem reage 
nada pro-move, provem  e de vaga em vaga, estanca 
assustado, estagnado... e espera...  espera...  

Ávida - emoldurada objeta - o mesmo e o outro num 
outro e um outro ainda - sujeito e objeto em pausa 
sujeitam-se - está aqui mas ainda não vive - obra parada 
não-mirada pendurada em parede, aprisionada em livro 
fechado não lido, estacionado em estante, vislumbres 
de idéias não dedilhadas, que não tocam, não desce 
às mãos - um quadro não visto - olvidado em parede.  

Desemoldurar o que se passa na obra que passa 
que passa a ser-para, ser-com e caminha docemente 
com-vive e circula com o que aqui vive e entre-fica.  

Confinamento espacial, represamento, tempo cristalizado 
moldado no "bi" e no “tri” dimensiona, in-siste, per-siste (?) 
em lugar criado dedicado o artífice é dado à'feitos, desde o início 
tudo aqui, temporalidade suspensa estanque em seus moldes 
existência estática - silenciosa - paciente espera...  

O perceber tangencia, com-vive e causa seus efeitos 
ié através de com-vivência prolongada que a idéia 
já múltipla, se achega e afeta, apropria-se e no tempo 
discorre e no decorrer quando emana se dá no tempo (?) 
é aí que aparenta deitar-se ao linear e aos seus efeitos 
privado de sentir, de pensar, ao expressar nada volitam 
ao se apossar à cata de algum lugar para estar - o aí 
criativo - no lugar mesmo, cria o dizer e ao dizer o dito 
escondido - bem escondidinho no digo - digo: vai para 
com-para, para-com, acende fagulhas ao se dar e dá-se 
incendiando o espaço que inter-loca e vigora e consigo 
mesmo e com o outro - com outros - com-versa.  

Inventa dinâmicas, velamentos (?) e o artífice, em perrengue estanca 
e em seus modos seus moldes, hábil trama e encalacra lugares, em lugar 
de alçar vôos e se encarceram a num canto, um cantinho - criado - qualquer 
que seja, apegado em desmesurados processos que sustam e assustado 
se emprega e debruçando se deita, cessa cansa do dito, da fala, em dizer 
o que vem dos olhos que sussurram no cantar do digo.  

Comendas, encomendas, contendas que não dão livras, escravizam 
coisicam, não dá liga e nada, nada mais se encontra aqui de vivo.  

Dentro e fora - ao observar - quando atento - nem dentro nem fora 
propriamente alcançam as constantes inconstâncias da historia 
e de seus possíveis - e fora, lá fora - ao observar - de um lado 
e de um outro o que engendra se instala convenientemente 
voluntário - e dentro bem dentro - quando atento - observa 
nas constantes e das inconstâncias da história o que potencializa 
e o que brota de seus possíveis - à vigorar - dentro e fora   

Dentro daquele que aprecia no que adentra, observa que é
devido 
que é no aí de um instante que atento é que se dá
o além, o aquém 
do “digo”, é ali onde a linguagem vivifica
age e gera, produz frente a presença histórica 
e à vida mesma
que ora vai, que ora vem e é a “ela” 
com suas vagas, vogas
sendas e giros que tudo gira 
e gira, a tudo e a todos...
permeados, qualificado em ser 
aos - sentidos, e de multi... 

- as significações.  

Se-se privam - a vivência, aborda ou aborta, nubla ou dá estio 
internam por bem seus intentos quando apercebidos e se tocam 
roçam, resvalam e faz contato, produz, persistem, insistem 
e o hábil gera intentos, iluso tece ao existir e nas prés e nos prós 
de-ter-minam posições -  aqui, duplicidades moldam o ente vivo...  

Está aqui, sempre esteve, no aqui do aí-criativo (?) mas ainda não vive. 

O início, o meio, o fim, tudo sempre esteve ali em processo
desde o início 
tudo ali, temporalidade suspensa, estanque
em modos e moldes, existência 
estática, silenciosa espera
paciente em tangenciar privada de sentir, de pensar 
na percepção
das coisas e se ancora onde pode e conforme as condições 
dadas privam-se por conveniência por inconsistência e convivência
prolongada 
e a idéia a idéia o a ideal instala-se e necessariamente
reflexiva (?) 
e de um só estalo e nada nada volita nem no espaço
nem em tempo 
pode o aí-criativo construir o lugar essa base onde
o incriado se achega 
e pousa e colhe e acolhe mesmo que subtraindo 
o aqui onde o dito real 
ocorre, e inevitavelmente cria a morada
que é câmbio entre o mesmo 
e o outro sem que aja “diálogo”  
que nos humana sucumbe sem interlocução não há como
se instaurar o espaço de vigor aí padece, míngua, falece. 
 

ié - na medida da pega, dos empréstimos do que capta e causa 
efeitos múltiplos aos passos, que dado, o alcance e os percalços 
o caminhar do digo e talvez vaze por frestas, passe por entre escolhas 
que do aqui, do mesmo, do outro se relacione e já aqui liberte ou oprima 
não importa, importa e agarra o que capta e traga pra cá o digo e diga algo 
de presente de graça e desemoldure o quê que na obra passa e passe e ser
para 
e caminhe e com viva com o que em ti fique e viva… já que existe.  

Sentir, pensar, traduzir as sentenças, os diálogos e o que neles é
pronunciado: - 
sensações, impressões, idéias, volições, representações
afeições e seus 
efeitos, seus de-feitos e a vida, a arte em elevada esfera
e que possa no-aqui 
no-aí onde in-sistimos e ex-sistimos adentre naquele
que aprecia, par’além 
de degustar o degustado, mastigar o mastigado
e não estanque, nem se 
empanturre, mas que, mergulhado no instante
luminoso em que observa 
atente; ié no-aí que se dá quando dá-se ao além
e no aquém em que o dito 
diga... aí... aqui... onde, o dito real - o digo - ocorre...  

No aí, aqui, ali, no lugar onde a linguagem ocasione e alce a existência
vivi-fique e aja e gere, produzindo frente a presença histórica e à vida 
mesmo a essa vida e a nossa arte, que ora vem ora vai, mesmo que subtraia 
enquanto se desoculta e assim adicione multiplicando e não nos divida 
em combate que mais valia do que vale ao aí do criativo e à criação.  

- a arte não necessita ser paterna, nem materna. 

(...) 

* pois - então que seja - que seja mais fraterno, para que os dias 
e as noites possam ser oportunamente solidários...   e ela... ele... 
é ...  você mesmo... mesmo que num outro... e outro... e outro...  

(...)

O que vige, rege com suas vogas, suas vagas
suas sendas, giras e giras, giros em tudo, 
em todos
permeando e permeado, qualificado em ser - aos -
através dos sentido 
e além, par’além das muitas
múltiplas significações. - 
Então, mesmo no vai e vem
então vai - vige - rege - vem em arte ao que sobe
e desce erra 
e cai... Manifeste-se-o-ser - em arte

- (...)

- mesmo que em m’arte

- (...) 

- ou em outro lugar qualquer. 
 

- minh’arte... - su’arte… 

- a roçar... - a roçar-me... 

- a roç’Arte... 


w.a.rossatto 

No recôndito ecoa a voz do universo. 
O irredutível. O uno. O singular. 
O tempo que condensa em si todos os tempos. 
Onde o amor pelo amor do outro 
é também um modo de amá-lo. 
E de amar-se.

(Um olhar para além do olhar - frag. de Sérgio A. Sardi)

o poema o poema

o poema o poema 

face 1 - a casa o lugar (?) morada (?) o acaso o ocaso caso quando há um quantum no capto na cata no cata-cata que no tempo gera e habita caso dê guarida nele e dele reprisa pisa e repisa o que aqui se passa e repasse num canto que mexe e que remexe no que já em terra - terra-terra - e sola - que solo?

- já em terra afofa e semeia desponta verte e desabrocha e galga pro lado de fora e envasa. 

- ié tão breve tão breve é o espalho o pólen o fruto - que fruto? - fruitivo?

a espera o súbito o susto o indício a semência a semente o bulbo o broto o mote que aflora e brota o início a haste o cuido a planta a flora a água a água a busca a rega o brusco o viço aflora e vasa de dentro pra forra na farra de luz&sombra e se-diz-diz-se: luminoso... 

- luminoso o instante - Luminoso?

e o bobo o bobo pega e na pegada se apega e neste pega-pega pega gosto pelo vasto e a flor que de tão breve tão breve poliniza espalha e dá o frutos - que fruto? - fruitivo, 

- degustando ao sabor do inútil. 

- naquilo do que é não é nem é nem não é degusta no assim disto isso-isso é nisto então que sabe que é disso que vem... e vai e insta ao sabor desse algo dito útil e do inútil e daquilo que se colhe o suplico o suplício o peço ora em modo ígneo ora em mero e efêmero feito na mera e errante farto se perde na pura incapacidade de conter frear a língua que condicionada pousa em modos de redundância e sedução. 

- luxuriooosa ... vaidosa ... vaga... vaga... e vaga em tantos com ou sem rumo sofre e sofre pincelando paraísos purga em reino de tolos turvando as águas toando entorna derruba rebela unha arranha arruma essa bagunça por toda casa e trisca rasga os sentidos ilhando almejos e aí sidera alucina esgoela e narra faminto por descaminhos confundindo ainda mais encalacrando num canto um cantinho qualquer que seja e esquece repassa e passa...

- passarão... passou...

- passarinha toda carne por entre ramos por galhos povoados por multidão de vozes trinadas de diabretes alados. (passarinho devorando passarinho por ímpetos territorialistas). 

passarinha a carne toda corporeidade sob as garras do concreto e encerra. 

- contamina e dissolve e seduzido cai brada e a torta e direita obtusa diz em alto e bom tom tudo aquilo que sempre dá no mesmo e em queda livre e pelos giros gira-gira em experimentar o já experimentado privando-se se espremendo ansioso e inquieto mastiga e mastiga o mastigado naquilo que não é e nem nunca será e a ninguém pertencerá daí o atrito o conflito o rosnar e o rugir o grito e toda essa barulheira. 

- o inútil o engano... e o grilo... o grilo estrila... 

- o estrilo dos grilos nas noites... ah... esse grilo... grila... grila-grila grilo... grila... 

- Ouça ... Ouve (?)

(?) - vem grita - vai grita - grila-grila grila cricrila rompe esse grilhão que limita tira o nó do cerne d’alma ou nina nana canta a bocca-chiusa faz naninha canta nana-neném dormita e quebra o galho o ramo a ave a asa arvora o poema e o poema dorme, dorme - dorme-dorme o pássaro o cerne que engaiolado te pega, pega, pega e ousa voa avoa voa...  vai ...

vai, vai, vai, disse o pássaro, o gênero humano não pode suportar tanta realidade. - T. S. Eliot -

- vai... vai... escapa sai daqui, livra o lugar disso tudo. 

- que lugar ? não há um lugar não há nenhum lugar uma morada possível que nos fixe dado o ímpeto que nos aprisiona em tremendo burburinho. 

- pois então que passe que passe então já que vive e morre passarinha mesmo que num breve, pois o perene se esconde no instante e já que dentro entre se adentre e põe-se pra fora e vai... vai... sai... sai daqui... sai... 

- vai par-além ou par-aquém e apreende dê asas e afira ou põe-se ferido e a deriva essa ofertada maquiada liberação que manipula almejando controle encalacra-nos  nessa inoportuna cela ferrosa essa forma que fere afere e cala fundida no pó em pó e no pós entorna gélida e range fria tão fria grade que encarcera e conduz a planos de esquecimento a desfrutar mero deguste dos sentidos e estes mesmo que incompletos falhos o poema exaspera desespera e um vazio o vazio que o contém e  no curso em curso do que soca goela abaixo e só por um tris é que trisca risca e arrisca, mesmo que atabalhoadamente, num rascunho mesmo que jamais definido ou claro mesmo garatujando em miséria essa miséria de um não mórbido do não do poema, ao não do poema, o não no poema.

... vai e cai, cai e vai, vai indo assim e assado enche cabeças e corações com tanta inutilidade, blablarizando-nos mais e mais e de nica em nicas, necas, necas de pitibiribas e o precioso contato o leve toque que nos poema nos breves abrevia ainda mais o que o toque do instante dá e instaura

Que bebe? - Que come? - Que sorve? ...Palavras, palavras e lavras, ditas mágicas, loa de vida e morte e mais mortes que esse cativeiro encerra... e o poema... bem... o poema é o poema e quando poema o poema é o quê o bebe que o come que o sorve absorve e assim o sol-vê no escuso, asséptico? profilático?

 ... e no escuro no breve que de longe pressente e vem e se presenta a saída a porta que aos poucos e gradualmente chega ou simplesmente se esvai num tanto num pouco sem dele jamais deixar vir ser ou estar no será do poema e num misero ou rico canto se achega conchega  vem residir na casa na-morada que o poema que mesmo sem ter um lugar à habitar se escancara e põe-se aberto e pardalinha... e o poema é um gole d’água bebido no escuro. 

... a sina o sino, este signo quase mudo que enuncia badala anuncia - talvez - o fim de tanto, já tantãs, tantas e tantas especulações que teimosamente, ainda assim nos dá leme os remos a mover o poema que não nos deixa em total abandono e dentre os tantos dos possíveis que nos poeme adentre e toque o barco... e... finalmente  aporta... te enreda... e te enredando... te abarca.

 

face 2 - de emenda em emenda o mergulho o medo o remedo a remenda os remendos a cota a conta a dúvida a dívida que repeteca-nos nesta pauperra trava e emperra reprisa reconta recôndito recorta comprime à caber, subtrai-se o toque o contato os contatos e as tormentas que ferem espetam espinham e arrepia e o suspiro o suspiro a pira do roçar que eletriza e um eco o eco que orgasma que abisma no alto e o arbítrio o baixo o mote que teima em pulsar num tema num perfil e perfila em tal pulso que palpita, pois que livre e aos pedidos a perdida os perdidos, tantos, tantas aos bens o bem o não os nãos do bem o bem mesmo, (livre?). 

-  o eco do poema desloca perfis. - 

comenda das águas - comédia das almas as almas a alma e a grande grade que delas ao meio aos meios no meio do caminho o caminho os caminhos a trilha as trilhas de a uma pobre senda o pequeno o pequenino forçando as grandezas os olhos o olhar pregado no efêmero no sentir os sentidos todos no pensar no pesar no repenso no recinto  o ressentir que num gole no gole - “um gole d’água bebido no escuro” -

- no mole no duro o muro dos descaminhos e a pedra atirada no abismo - e o “ rugir de um caos atônito. 

face 3 - pesada se pesado penada se penado leve se leve e se de longe muito longe um longo muito longo como este que o pegou e o pegou de jeito e se de longe ou perto peguei, paguei, sei que paguei, já paguei, pago ainda, pago agônico pago atônito e a esta não medida esta desconhecida ordem o caos que gera só por pouco por muito pouco mesmo não sucumbi e rugi no prensado no opresso ao apreço de sempre estar voltado ao poema, desde menino e quanto a pedra   bem, pedra só pedra abaixa e pega ela e atira num largo impulso... longe... bem longe...

mesmo que por tortos - todos os caminhos - é nas noites nos dias escuros e de claros enigmas que os monstros surgem mas monstro já não medra... pois mostre escancare o que enreda o que enreda nos lábios nas mãos nos dedos de-monstre o que insta e se acaso se instale instale-se com ou sem lira ou em ternas mesmo que aterradas no mole no duro não perdure muito nas margens e o rio os rios o rio corrente rio que influi rio que flui rio contente pois redivivo e a quantos for... o rio, o rio - rio fluente - e a vida verte.

... e o horror que alheia que abocanha o insone fica à espreita o belo o belo se rebela se debela e o feio o dito feio  a fera a fúria a besta o ferro - ferro a ferro - vis-à-vis o nunca no fora, tô fora, tô fora de tudo isto já passei. - já passou fui embora não estou mais aqui é mosaico vivo é prosaico semelhante em semelhante que fere e oferta ao sofrer os reveses os reversos da carne essa carne morta que maquina e roça e rosna flamejante na espera, esperança inda que lírica em ser-aí - ser-com - ser-para ... ... ser-pra-quem ...

[ ? ] ... vive e morre come mora põe em vigília contínua e no pó lembra da difícil jornada que ex-clava que es-crava e escreve e escreve e escreve... da dor da orbe de como desce de como sobe e de um suposto amor obtido. e escreve e escreve enfim tão somente e leva ora chumbo ora ferro ora pluma ora leve ora rijo ora belo ígnea a fala a escrita ígneo o poema que ainda assim, se desatento, escorrega e foge despenca e em queda livre cai... dura tanto quanto pesa ou flutua recusa tormentas revida contendas levando ao desuso e desanima desiste definha,  não vê (?)... -

vê e fica e quando vai fica vela e turva suprime e labirinta e enviés enubla sem pátria sem prato sem teto sem nota moeda qualquer que seja ou verba ao verbo e estanca sem uso e por fim forçada, na marra, aquieta-se silente são ou doidecido dorido cala e esquecido - contentamento súbito - surge incólume e dorme dormita descansa inquieto e sedado ... em pausa ( ... ) .

 

face 4 - Matura. luz lamparinada... e verde-grila verdegrila tua câmara de horrores debela mesmo ao outro o mesmo que dá mesmo que em forra fora do tempo no tempo mesmo...

e o grilo... ah o grilo - sim o grilo - os grilos que antecedem a entrega e entrego - oferto ao poema que o poema - e o grilo  - sim os grilos... - grila-grilam – cricrila - estrilam ... 

Ouça... ouçam... Ouve (?)... Estão ouvindo? (...)

Tudo tão vago tão raso tão rente e o profundo e o mais aparente rente a mente a do poeta que quando entregue ao poema cai em si e em sina - a de furtá-lo do velado mente, mente o poema, mente e engana ao revelar “se” em que no desvelar... se subtrai e então - que fazer ? - sê-menos e a isso sê-mais e no ínterim do que temos(?) e teimar nisto - não ter-memo - não obter ter - ter menos em ser-mais. sê-menos e assim... no mais... Silenciar... quedar-se quieto.

 

face 5 - Dorme - dorme agora dorme - dorme criança - dorme toda gente - é melhor - pois tudo o que corta arde dá talho e dói e no esquecimento só após muito frigir depois de muito burburinho é que o intento rompe o casulo um tanto mais por um tanto menos é que por toda a carne e por quase nada que a carapaça frita pelas duplicidades e especulações fingindo frigindo cozendo é que finalmente se entrega pronta e silenciosa... ié no silencio que aturdido e pasmo pode voluntariar-se a humanar e aquecer o poema - que aquietado - põe-se posto... pronto... está posto sirva-se pode degustar fique à vontade - ié por um pouco só um pouco - um pouquinho que seja de paz...

e o poema navisfera toma rumo e a seu meio horizonta ajeita rotas parenta linha reta mas é curva geodésica se adequa nessa reta mas apenas em pequenos horizontes e mesmo em déficit de expressão mesmo num expressar difícil tão difícil que tropeça deitando velamentos ainda maiores em desvelar e boiando em vagas desajeitadas tentativas em humanar de fração em fração imensa o dito humano .

e o poema prisioneiro nos limites daquele que capta ainda assim decide colocar frente a frente em si - na verdade poema - quando poema – coloca o mesmo a um outro e outro e poema - na verdade mesmo é que - pouco im-porta pouco importa o poema – que se dane se o poema se porta ou não ex-porta e se não tem gente dentro - a se valer - se o poema - quando poema – quando chega a gente - se-se achega e feito um amigo ou mesmo um inimigo ao lê-lo na sua mira ensina abisma e nos põe age - navisfera a gente - mexe sacode bagunça e remexe o que vai na gente.

- ao ler o que vem dele e o que vai nele o que tem e se atem e ao que fica no que toca do que lembre e relembre nos dê-volva os fins mesmo que por volteios e nas voltas e mais voltas afins em-volva e com-chegue até lá nos confins da gente dos que encolhem nos que acolhem a gente mesmo que em recuo na recusa recolha o quê que nos devolve algo que alise que roce ou coce ou morda que arda e que alegre e ria com a gente com o quê que em muitos finaliza e mortifica e a outros vivifica e desdobra existências e - em-caminhe pise repise pense sinta repense res-sinta ame e emane e aos poucos - passo a passo - quem sabe o poema chegue venha até nós e nos poeme - e de vida-em-vida assim nos melhore.



Transmirando o Poema

 - deixar rugir o caos atônito -

- o eco do poema desloca perfis -

- o poema é uma pedra no abismo -

- um poema como um gole d’água bebido no escuro -

 
- fragmentos de Mario Quintana 

 


O Fogo Dança 

O fogo dança - chispas - fagulhas luminosas ascendem dando asas aos remos e alçando vôo - e essa idéia insistente em criar semências - sementes crepitando pairando embaladas pelo ar e mãos aos remos... rema e rema - por horas a fio - navega feito um barco aéreo singrando e-venta quase etérea com um broto verde na ponta. 

A inconstância do humor dos ventos - ventania - ventarola de romper o vigor do viço, e a grande farra, uma farra de quebrar os galhos, de vergar, arqueando as forquilhas dos ramos, florescências que crescem e crescem e por entre os raios as ramagens de um sol vigoroso, um daqueles que parece que a gente pode até pegar com as mãos – um céu entrelaçado penetra enroscado no espaço escasso de uma promessa feita secretamente a ela, promessa de pousar em chão fértil e no esforço de não despencar, não cair neste frágil e fino véu, véu marinho, véu marinho negro-azulado, estreito manto - e pousar num lugar longe das espessas névoas, bem pra lá dos confins desta noite - onde nuvens não venham ocultar ou turvar o frágil espelho prateado desse raso lago. 

Espelhadas lâminas transparecem claros e escuros por sobre a cata e venta, ondulam largos gomos largas rugosidades esculpidas sobre o espelho das águas na brisa do vidro translúcido do olhar que encharcados, mareja no zigue-zague das ondas colhendo fases dos viços na tela do rosto, lugar (?) forja dos sentidos, degustes que dêem sentido às coisas as curvaturas veladas das superfícies a se desocultar e a vir tocar o súbito, o trágico ver-vir dos interstícios, aqueles, os tenebrosos, mesmo que seja só de um fogo-fátuo de uma precária dança - 

- por lenha na fogueira, encrespar toda ela e num cadinho de tempo, o caos, espaço informe que adentre e submirja e traga à tona, pouco a pouco, quase tudo que há e pode dar o embalo às vértebras fogosas da naja da língua dos ares e circum-baile - dance-dance aos rodopios nas chamas desta ciranda do fogo.  

O fogo dança - dança incólume - alumiando quase todo o caminho como a tocha de um poema se rende ao encontro, e dos contrários brota dos possíveis, busca entre os achados e perdidos os ilusos que nos dão rumos - e são tantos - tantos são os rumos - tantos os caminhos e nada sabemos de certo - nada - nada de como ir nem pra onde ir ou por onde começar - quando fora daqui. E ensaiamos.

- ensaios e mais ensaios - ao arquear as asas, redundando e ocultando sorrateiramente como sair - ir saindo de fininho deste lugar permeado de misérias  e são tantas as misérias - tantas - cheio em traçar planos e rotas de vôos, troçar das decolagens alheias - ora altas ora rasas, das aterragens.

Já perto em ‘debicar’ - nossa pipa - alçada a grandes altitudes e feito um mosquitinhos ao longe nos dê a guia aos tantos e tanto possa vir e dar um abrigo sincero, um hangar ao fôlego e nos dê liga à linha - sem cera - e valha algo. 

07/01/21


Onírica  

Humana - e-male-male - se presenta a esse homínimo. E agora deu de xeretar planos, plano a plano - um a um, um por um, camada por camada - uma a uma - a chafurdar vias - várias - buscando uma saída, uma vazão possível - um escape - desta apnéia sem fim - suponho que etérica. Tomara. 

Então conto. 

Mas como contar? Que usar para contar onde o dentro, o fora, onde ocorre, dentro de onde? 

Do lado de fora de lá de dentro onde tudo se dá e se desenrola aparente o ad-continuum, e dentro, lá de dentro, manifesta-se e vai se configurando por partes – parte por parte, em blocos, bloquinhos truncados que se concatenam. 

Então tento. Vou contar. Quero contar. Nem sei se posso mesmo contar; e por outro, mesmo assim, assim mesmo conto.  

Sei que de início o contato possível era estranho, mas durante e finalmente é leve, bem leve. Por quase todo esse quadro, nessa cena - cá e lá tem seu peso, no que possa e venha incorporar, no âmbito do incorpóreo - levo - sim, levo e assim levo e conto e narro. 

Vou contar 

- e a grande custo. 

Humanado - submirjo... E aos poucos - pouco-a-pouco - ele embarca e das mãos e por sobre as mãos, rema e rema devagar, bem devagar - mecanicamente - põe-se distraído sem dar muita atenção lá às remadas e remadas que dá; e quase nada de corpóreo havia nisto, sim, não se apresentava ao aqui e agora, nem sequer permanecia muito tempo neste que parecia repouso. 

Havia algo. Algo no olhar - e de olhar, que só aparentava algum centro, sei que ensetava todo entorno e no largo um lago, num enorme lago embarca - e - pé a pé - alaga o barco e naufraga no charco alagado que há dentro do barco e em lentas passadas e passado o assim, assim se faz e caminha, navega diria. 

Mergulha em águas - águas muito estranha - água barrenta, quase toda - coberta por uma rala película - um lodo sedoso;  e vários chumaços de igarapés - esparsos, verdes e também terrosos em suas folhas carnudas, nem sei - talvez seja um rio, ou talvez seja um lago, talvez represamento - enorme - nem sei nada - não me lembro - não se vê as margens d’outro lado - e supostamente abarcado, ao remar, delimita toda paisagem, que ora adentra, ora põe fora. 

Afora e à margem, esse lado de fora demonstra do estreito, que sufoca, mas passa e se adentra e se imensa. Mas do imediato o mesmo, que se adentra, não se apresenta, nem nada cógnito presenta. 

Não se trata de dizer algo do nada - que nada (?) - mas parece ser. 

E em estar - demonstro. 

Na barca, a dos pés - perfila e desliza, por cenários - que sei que é bem mais onírica que na real do caminho. 

Compõe - cena a cena - uma superfície - permeada e variada, uma gama de cores - cores verdes e terrosas - que vibram e pulsam aqui, ali e no acolá, pincelam tons, uns tons - de marrom e breves tons de bege que cintilam, mas quase escapam à seta d’olhar. 

Algo - se - mantinha oculto, mas não totalmente escondido, camuflado e de soslaio escapava de um olho, de um olhar que captado, captura e escraviza a entidade viva - claro - pois advinda de mergulhos, um longo e recorrente percurso - e sim ... - onírico sim. 

Cênica: - provinda de certo estorvo, por vezes lúdica, divertida, no revés, vez ou outra de viés se dava ao tempo e num espaço de tempo, o tempo imergia - sensação estranha. 

Que tempo seria este? Esquisito - Tento contar. - 

Os detalhes, os Intentos. É difícil... Muito difícil é lembrar-se-lembrar 

- agora - contar mesmo?! - Hum... Talvez, sei não... Quem sabe - Ao que consigo.

Quando os caminhos bifurcam a escolha só parenta ser plano, mas não é, pois só a visão que restrita e horizonta e achata a orbe. Moldar, tomar direita, dita destra, que nada endireita ou esquerda, dita sinistra, ambas - suportam divisões que enfadam a existência em estritas e estreitas dualidades. 

Sinistros ou (a)destrados comprimem e oprimem as entidades vivas, achatando as ricas nuances de convivência e a conveniência civilizatória frente à presença histórica. Por fora bela viola, o dentro pão bolorento... 

ahhh ...

É esférico ou deveria ser, e o propósito, o intento, alcançar e expor, impor o ser, e ser, entrear quando do silencio a fala perfaz pro lado de fora enquanto ainda dentro Para mostrar o que se dá a ver, onde o mesmo e o outro venham a consumar seu encontro, fica à mercê de milícias abomináveis e tacanhas; que manipulam e dobram, deitam e aprisionam os possíveis da existência. 

Porque cerceiam e reduzem as riquezas do existir ao interesse destes poucos? 

Porque promovem deliberadamente estas desigualdades e desequilíbrios medonhos? 

Maniqueísmos, produção deturpadas e reducionistas de monstros famigerados, famintos pelo desfrute das riquezas do poder temporal.    

Tocar, perceber, se ater ao que vem e o que se dá a ver, demonstrar que o quê se dá a ver e ao que vem, vinha-vindo, a  ‘entrear’ ao que era ié... e vem... vem-vindo - que venha então. 

A impressão que causa de o vir, do que pode vir e vinha, vinha consumar, somar do que vinha-vindo, do que fazia sumir aos poucos, mesclava ligando e produzindo ramos ao mergulho, pra onde ir? 

Mesmo que no possível e dos possíveis configurar o sumo do recordo - e neste recordar instaurar e trazer ao imediato, ao plano físico - a physis, materializando, pro-duzindo alguma coisa que palpável que adentre mesmo antes de chegar. 

Conto: Subia e descia - assim - e sobe e desce. - Subia e descia por entre ruelas, trilho por estreitos, por passagens em Y. Sei quê do que via é que de antes já me havia, e  houve assim - algo bem mais como deixar ir - ir-indo. 

À porta - é dito - dizem - digo - Talvez portais!?  

Pode-se muito bem dizer que rompa com tais padrões, os do tempo, do espaço, dos 'bi e dos 'tri - para fora de ditas armaduras e molduras venha dar uma melhor dimensão do quadro todo.

Ao que parece tudo se deu em interstícios, filigranas entre vigília e sono, lugar, lugares que passeiam os sonhos - dizem... 

Câmara de pura e intensa criação.

O ‘abstrato’ pouco seduz, na verdade não é muito bem vindo ultimamente; ele confunde - não se sabe mais dar boa lida a isso; as coisas, as não-coisas, as que provem subjetivam, o abstrato se perdem por entre os dedos; já que não se presta a ser tocado com a carne das mãos, com entre olhares, a apnéia de mergulhos de coragem e ousadia - acho que nem sei. 

Dá um medo danado, pura paura; quiçá, claustrofóbicos tornam os mergulhos, entalado no estreito da entrada de acesso pr’outro lado, e devido a insistência de tentar passar, e do susto que causa, acorda, fica no trauma, na supressão do informe. Mas ainda tento - acho - e por isso traio, abstraio; na tentativa em traduzir, tento em contar, atento e conto, com medo e tudo, mas cansa, sim, cansa, mortifica, por isto contraio, subtraio a narrativa, distraio e finjo estar por aqui ainda.

Não se trata de mero desarranjo planejado, nem de tempo, nem de espaço, muito menos em tecer os pedaços de onde se determine algo dos possíveis, de um lugar para que ainda se possa existir. 

De além, de muito além, par’além que brote e de ti ‘em-sai-te’ e movimente, que dê sentido, viceje e encante, e no soslaio lance a seta do olhar, seja entre aberto ou fechado, chegue e veja; e no son(h)o, o que condiz, conduza ao imaginário suas sonâncias e dissonâncias e finalmente acorde. 

O que preponderava mesmo, era que do etérico precedia, se achegava antes mesmo de chegar, pré-vinha, acenava, acontecia antes de advir, e se mostrava - no após - antes de transpor e revelar o que do por vir se antecedia de um tempo - outro - neste mesmo; tempo esse que já não havia, não pertencia mais ao passar tic-taqueado do pulsar de um relógio. 

D’então o quê estava a vir? 

Por um miúdo buraco, passagem estreita, mas possível, justo, dava pra passar e passei, a custo. 

Mirando, minando a pedra, cavando num lance de olhos, o intento do olhar, o transpassar, dava acesso pr’outro lado, onde se ocultava uma imensa mata verde morro abaixo. 

Vilarejo simples, ladeada na periferia de uma baixa floresta, vila rodeada por uma imensa massa verde, envolto em musgo, os troncos e as copa, pareciam brócolis. 

O começo dos caminhos, em meio à vida, cena a cena, acena - todas elas - e aos claros - escuros – e de início, escusa - e aos poucos - pouco a pouco brotam os agoras, os jás - as prés e os pós destas vias que do olhar emergem.

Atento aos passos, os pés davam à construção do caminho, o caminhar a partir do alto da estrada terrosa, encaminha-se  precedendo o mote em chão  batido e rebatido, vezes e vezes, a superfície, artificialmente arenosa e cortada em vias que enforquilhavam de cima para baixo, em declive. 

Os passos tinham que ser brandos, cuidadosos, já que tudo iniciava da parte alta da via, cheia de pedrisco, isso pede arquear, flexionar as pernas, andar atento, bem antenado - via onírica - então ligado, descendia... Ia, ia... 

O destino? - ao final dessa ladeira, que em descendência, beirava a um barranco cavado. 

No extremo, a casa, uma destas toda avarandada, simples, antiga, do tipo bangalô - cri nisso - estava inabitada e alicerçada a muito por sobre uma pedra, uma  bruta pedra, enorme essa pedra - encravada num morro. 

Saiba, e de antemão nunca me havia e embora soubesse, de alguma forma, que antes já a muito havia. 

Detalhe... 

Uma cerca em ripa de madeira de ponta a ponta cercando um terreno em seta. 

Aparentada aquelas às das de infância, lembrava a ‘chegada’, nela um portão, fixado em caibro de peroba; e mirava - convidando a entrar - o telhado triangulava o céu. 

De cima abaixo e à frente, após uma trilha de tijolos, uma fachada e em seu entorno uma varanda, abraçada por mureta assentada com lajotas de cerâmica, abaulada nas bordas, enceradas com cera em pasta vermelha e já ressecada, craquelada pelo tempo. 

Na área, avarandava pilastras falseando colunas em estilo dórico, que muito bem serviam de assento e recosto a devaneios juvenis. 

Bem... de dentro, brotavam demarcações, tanto do avarandado agora, como todo o estranho e belo e fungado habitat.  

À porta, a de entrada, com janelinha à altura da vista, com borda de madeira, servia de moldura ao vidro, trincado; dentro um trinco, pequenino assim como os olhos e o olhar que os via. 

Já dentro a casa internava uma ampla sala de estar, vazia agora, empoeirada, uma poeira já viscosa, moveis bem antigos, tanto quanto a casa, num canto um piano, um velho piano, com teclas revestidas em madrepérola amarelecidas e já carcomidas pelo tempo, que desgastado, ficava nesse abandono; noutro canto um sofá, bordô, de napa rota, carcomida, e ao centro uma mesinha, de falso mármore, *(não sincero). *com cera. 

Dizer démodé seria redundância, mas digo; e por contra censo, já que o que se via encontra-se do lado de fora desse tempo ou d’outro e desdobrado e sôfrego o que aqui, descrevo - tento. 

Havia outros e talvez seja muito confortável ficar no cômodo e no neutro por assim dessa narrativa. 

Apenas um deles ficava em maior evidência; por trata-se de um modesto quarto, que apresentava sérios indícios em se tratar de dependência, quase uma despensa, destinada a serviçais, empregados, que por hábitos de castas, horrivelmente seculares, neste lugar que habitamos, perpetuam-se em tratar as pessoas em conveniente desigualdade.     

Pr'essa (miúda) fresta, nada mais que um buraquinho par'além da parede, um vão na pedra que de baixo pra cima, e de forma encantatória, mágica, invadia e que (agora) fende e me habita - (aqui) - no interior desta casa.

Pr'esta que se sujeite e deite ao verbo todo sujeito que ao externo se coloque e fique todo cheiinho de si e a mercê dos percursos, os percalços, a desatar os extremos, cena a cena, desabando.

Passeemos... Passaremos por esses eventos, caso ainda acenda, caso queime, acaso ainda ascenda. 

Vai, vai indo, de senda em senda, dá um rumo que d'efeito em efeito dêem causa em causa, pause afincos, trilhe espantos e a tantos e outros, e por'aqueles que nos ele, acione os éolos, iniciem ventarolas eriçando os pelos, abrindo os poros, e de poros abertos preste a alçar vôo, passem por'essas noss'estradas. 

e assim abra, abra as asas - abr'asas, abra lá, abra cá   

- abra cá d'abra - abra... e que ainda mova 

Passeemos cheiinhos de si, acaso queime, acaso ascenda, seja aos éolos, dado às asas, que eriçam os pelos, os poros abertos aos ares, ares que tornados, tornem noss’estrada. abre as asas - abra - abra cá d’abra... 

Abra.

Fresta – (variação)... ladeira abaixo, viela simples, periférica, terra batida, socada, estrada arenosa, forquilhada, permeada, cheia de pedrisco - via onírica... 

Descia o destino ao final da ladeira, a beira de um barranco, uma casa, construída, a muito, acima de uma pedra bruta, agora, nunca a havia visto, embora saiba, de alguma forma, que de antes, quase com certeza que a conhecia,  

pr'essa (miúda) fresta, nada mais que um buraquinho par'além da parede, um vão que agora - ) fende ( - e me habita (aqui) nesta casa, pr'esta que venha, sujeite e deite-se ao verbo, todo sujeito que no externo fique todo assim, cheiinho de si e a mercê dos percursos e percalços desarrola a desatar seus extremos, erguendo-se ou desabando.

passeemos... passaremos por esses eventos, caso ainda acenda, caso queime, acaso inda ascenda, vai, vai indo, de senda em senda, dá um rumo que d'efeito de causa em causa, cause afincos trilhe a tantos, e por outros, por'aqueles, nos elos, éolos, ventarolas eriçando os pelos, abrindo os poros, e de poros abertos preste a alçar vôo por'essas noss'estradas.

e abra, abra as asas - abr'asas - abra cá, abra lá, abra'cá'd'abra - abra... ainda que mova - passeemos cheiinhos de si, e se acaso queime, ascenda, ainda seja, dado às asas, eriçando pelos, os poros, poros abertos, abertos aos ares que sempre entornamos por essas noss’estrada.   

- abre, abra as asas - abra - abra cá d’abra... - abra. 


 rio -  (?)


 por onde soa essa voz que ressoa e nos habita (?)

essa máscara que abriga e acolhe máculas

que adquirida, subtrai e vela ao se desocultar

que grada e degrada dardando significâncias 

e enceta, imprime ao desvelar cor e tom 

todas essas cores e tons

que ora se ouve ora olvida ora toca ora timbra

e na hora do por-pôr - põe ao viés dos sentidos.

 essa barca - esse barco - barquinho que de papel -

que em deter revelam rastros e minam rostos face aos intentos

e ao abarcar a cata na pega dos olhos o que vê o que ouve

por vezes olvida e pelos remos - o das mãos movem

e singram e flanam devido ao esforço

no empenho em ir e vir, mostra e demonstra o “quê”

monstra o que vem e vai e venda e velando promove 

navega permeando todo nosso habitat.

 
e essa vela - a muito hasteada, eventa, vaga 

e ela dá o elo e vasa, envasa e imensa os imersos

per-soam vozes que aqui vergam e vige 

e por esse rio - rio que dobra, longo rio 

rio que corre, corro - quem sabe manso e dócil

manso e dócil deslize por esse rio

por esse rio que flui...

por isso-iço

rio.

rio  -   rio...

 só.




13/04/20

astralismos de re-vejo - re[s]cinto


astralismos de re-vejo - re[s]cinto 

de pequeno vivia de olhar de cima
e de lá 
é que tudo me havia  

-  e via: - em dobra ...

num vinco do tempo 
um elo emanava 
um halofachos e fachos e fios 
de um leite astral que jorrava
dela e ela branca, branca, 

branquinha-branquinha 

arqueava em vôo, 
uma ave planando num céu negro
azul preto marinho 
e vinha chegando de um longo e largo
mesmo tempo longe mesmo perto, 

pertinha-pertinha 

- fingia susto ... 

- e ela vinha, vinha, pouco a pouco
aos poucos ela vinha ... 

- expiação imensa...

daqui a via pequena. 

havia só um buraco branco no céu
que aparecia sei lá de onde, 
sei que vinha de uma ventura figurada 
que se dava mais dentro que fora
e era só minha, 

era um aqui que se desdobrava...

e ela me dizia:

- vê se veste o céu menino e vê se avoa -

e eu tentava, tentava, 
depois frustrado via...
que por mais qu’eu ajustasse, 
não dava, não cabia.

já hoje tô pequeno e de vontade, 
na verdade voluntariamente me miúdo 
e desse jeito bato de um olho... 
e de um outro 
no que vejo me imenso 
e de tão grande um sem tamanho.

aí... miro naquilo em que me h’avia 
e vejo, re-vejo, 
ié bem mais agora que brinco, 
palavreio e reencar(n)o
e o que de antes, 
é bem mais agora que tudo me-valia. 

07/04/20

o poema o poema

Transmirando o Poema

- deixar rugir o caos atônito -
- o eco do poema desloca perfis -
- o poema é uma pedra no abismo -
- um poema como um gole d’água bebido no escuro -
- fragmentos de Mario Quintana

o poema o poema

face 1 - a casa a morada (?) o lugar ( ? ) do poema - o como o onde o quando o quanto o capto o quantum a cata o vindo do tempo e em tempo o tempo no tempo do poema e o poema que assim pisa e repisa e reprisa assola e o ser o estar aqui que passa repassa aterra e a terra terra-terra o solo - que solo?

e pausa e pousa o indício o inicio semência semente plantio a planta o cuido a mirada da flora a água a rega a busca a espera o súbito no susto da vasa que o poema no fora no dentro na farra na forra e que o poema que o poema o poema e diz-diz-se: - luminoso   -   luminoso o instante.   -   Luminoso? 

- o bulbo a haste a flora que desponta desabrocha... e o bobo se apega e pega o pega-pega do poema o gosto o sabor a saber a galga na vaga no vasto no vaso que o poema - a flor aflora e fora é tão breve tão breve o pólen o espalho o fruto, que fruto? - fruitivo? e degusta ao sabor daquilo que é não é nem é nem não é e nisso o assim esse nisso no então nisto e  saber que disto vem... e insta ao sabor do algo útil e do inútil - à colher e o suplico no suplício o peço na mera ora em modo ígneo ora em mero feito e errante e farto a pura incapacidade em conter frear a língua que condicionada e por muito pousa em modos de sedução. 

– luxuriooosa... vaidosa vaga... vaga e vaga em tantos aos poucos nos vôos com ou sem rumo voa e canta e sofre e sofre pincelando paraísos inventa purga em reino de tolos e turva o tom e tona o torto entorna derruba rebela unha arranha arruma bagunça a casa toda e trisca rasga os sentidos as ilhas do almejo aí sidera alucina e narra esgoela e faminto caminha por descaminhos confundindo ainda mais o canto a um canto  um cantinho qualquer que seja e esquece e repassa e passa... passarão... passou... 

 ...passarinha a carne toda corporeidade do que nos encerra nestas garras do concreto que encara e contamina e cai - seduzido a bradar nas tortas e direitas obtusas e dizer em alto e bom tom o de sempre o mesmo daquilo que não é e assim queda nos giros nas giras em experimentar o experimentado privando espremendo ansioso inquieto e mastiga mastiga o mastigado creditando-nos em acreditar naquilo que não é nem nunca foi ou nos pertencerá ... daí o atrito o conflito o rugir e rosnar o grito a barulheira do inútil o engano... 

e o grilo... o grilo das noites... 

ah o grilo...  Ouça...    

( ? ) vem grita, grita - grila grila-grila cricrila rompe o grilhão que limita tira o nó do cerne d’alma ou nina nana canta a bocca chiusa faz naninha canta nana-neném dormita e quebra o galho o ramo a ave a asa arvora o poema e o poema dorme, dorme - dorme-dorme - o pássaro o cerne que engaiolado te pega, pega, pega e ousa voa avoa voa...  

vai ...

... (* vai, vai, vai, disse o pássaro, o gênero humano não pode suportar tanta realidade.) ... T. S. Eliot

... vai... escapa daqui, livra o lugar disso tudo - que lugar? Não há lugar não há morada, dado o ímpeto que aprisiona fixa-se em tremendo burburinho - pois então que passe, passe então já que vive e morre passarinha mesmo que num breve, pois o perene se esconde no instante e já que dentro entre se adentre e põe-se pra fora e vai... vai... sai... sai daqui... sai... vai par-além ou par-aquém apreende e dê asas afira ou põe-se ferido e a deriva nessa  ofertada maquiada liberação que manipula almejando controle encalacra-nos  nessa inoportuna cela ferrosa essa forma que fere afere e cala fundida no pó em pó e no pós entorna gélida e range fria tão fria grade que encarcera e conduz a planos de esquecimento a desfrutar mero deguste dos sentidos e estes mesmo que incompletos que falhos o poema exaspera desespera e um vazio o vazio que o contém e  no curso em curso do que soca goela abaixo e só por um trís é que trisca risca e arrisca, mesmo que atabalhoadamente, num rascunho mesmo que jamais definido ou claro mesmo garatujando  em miséria essa miséria do um não mórbido do não do poema, ao não do poema, o não no poema, que vai e cai, cai e vai, vai indo assim e assado enche cabeças e corações com tanta inutilidade, blablarizando-nos mais e mais e de nica em nicas, necas, necas de pitibiribas e o precioso contato o leve toque que nos poema nos breves abrevia ainda mais o que o toque do instante dá e instaura ... 

Que bebe? Que come? Que sorve? ... 

Palavras, palavras e lavras, ditas mágicas, loa de vida e morte e mais mortes que esse cativeiro encerra... e o poema... bem... o poema é o poema e quando poema o poema é o quê o bebe que o come que o sorve absorve e assim o sol-vê no escuso, asséptico? profilático? e no escuro no breve que ao longe pressente vem e se presenta ... a saída a porta que aos poucos e gradualmente chega aporta ou simplesmente se esvai num tanto num pouco sem dele jamais deixar vir ser ou estar no será do poema e num misero ou rico canto se achega conchega  vem residir na casa na-morada que o poema que mesmo sem ter um lugar à habitar se escancara e põe-se aberto e pardalinha...   e o poema é ...   * um gole d’água bebido no escuro.   

... e a sina o sino, este signo quase mudo que enuncia badala anuncia - talvez - o fim de tanto, já tantãs, tantas e tantas especulações que teimosamente, ainda assim nos dá leme os remos a mover o poema que não nos deixa em total abandono e dentre os tantos dos possíveis que nos poeme adentre e toque o barco... e... finalmente  aporta... te enreda... e te enredando... te abarca.

face 2 - de emenda em emenda o mergulho o medo o remedo a remenda os remendos a cota a conta a dúvida a dívida que repeteca-nos nesta pauperra trava e emperra reprisa reconta recôndito recorta comprime à caber, subtrai-se o toque o contato os contatos e as tormentas que ferem espetam espinham e arrepia e o suspiro o suspiro a pira do roçar que eletriza e um eco o eco que orgasma que abisma no alto e o arbítrio o baixo o mote que teima em pulsar num tema num perfil e perfila em tal pulso que palpita, pois que livre e aos pedidos a perdida os perdidos, tantos, tantas aos bens o bem o não os nãos do bem o bem mesmo, (livre?). 

- o eco do poema desloca perfis. 

... comenda das águas ... comédia das almas das armas e a alma e a grande grade delas em meio aos meios no meio do caminho no caminho os caminhos e a trilha as trilhas de a uma pobre senda vagada no pequeno o pequenino forçando as grandezas os olhos o olhar pregado no efêmero no sentir os sentidos todos no pensar no pesar no repenso no recinto  o ressentir que num gole no gole - “um gole d’água bebido no escuro” -  no mole no duro o muro os descaminhos e a pedra atirada no abismo e o “ rugir de um caos atônito.  

face 3 - pesada se pesado penada se penado leve se leve e se de longe muito longe um longo muito longo como este que o pegou e o pegou de jeito e se de longe ou perto peguei, paguei, sei que paguei, já paguei, pago ainda, pago agônico pago atônito e a esta não medida esta desconhecida ordem o caos que gera só por pouco por muito pouco mesmo não sucumbi e rugi no prensado no opresso ao apreço de sempre estar voltado ao poema, desde menino e quanto a pedra   bem, pedra só pedra abaixa e pega ela e atira num largo impulso... bem longe... longe... mesmo que por tortos todos os caminhos é nas noites nos dias escuros e de claros enigmas é que os monstros surgem mas monstro já não medra... pois mostre escancare o que enreda o que enreda nos lábios nas mãos nos dedos de-monstre o que insta e se acaso se instale instale-se com ou sem lira ou em ternas mesmo que aterradas no mole no duro não perdure muito nas margens e o rio os rios o rio corrente rio que influi rio que flui rio contente pois redivivo e a quantos for... o rio, o rio  rio fluente - e a vida verte. 

... e o horror que alheia que abocanha o insone fica à espreita o belo o belo se rebela se debela e o feio o dito feio  a fera a fúria a besta o ferro - ferro a ferro - vis-à-vis o nunca no fora, tô fora, tô fora de tudo isto já passei já passou fui embora não estou mais aqui é mosaico vivo é prosaico semelhante em semelhante que fere e oferta ao sofrer os reveses os reversos da carne essa carne morta que maquina e roça e rosna flamejante na espera, esperança inda que lírica em ser-aí - ser-com - ser-para ... 

... ser-pra-quem ... [ ? ] 

... vive e morre come mora põe em vigília contínua e no pó lembra da difícil jornada que ex-clava que es-crava e escreve e escreve e escreve... da dor da orbe de como desce de como sobe e de um suposto amor obtido. e escreve e escreve enfim tão somente e leva ora chumbo ora ferro ora pluma ora leve ora rijo ora belo ígnea a fala a escrita ígneo o poema que ainda assim, se desatento, escorrega e foge despenca e em queda livre cai... dura tanto quanto pesa ou flutua recusa tormentas revida contendas levando ao desuso e desanima desiste definha... não vê (?)... vê e fica e quando vai fica vela e turva suprime e labirinta e enviés enubla sem pátria sem prato sem teto sem nota moeda qualquer que seja ou verba ao verbo e estanca sem uso e por fim forçada, na marra, aquieta-se silente são ou doidecido dorido cala e esquecido - contentamento súbito - surge incólume e dorme dormita descansa inquieto e sedado 

... em pausa ( ... ) .

face 4 - Matura. Tênue luz. Lamparinada ... verde-grila - ver-degrila tua câmara de horrores ver-de-grila debela mesmo ao outro o mesmo que dá o fora e mesmo que em forra fora do tempo no tempo mesmo fora do mesmo...

o grilo... ah o grilo - sim o grilo - os grilos que antecedem a entrega – e entrego - oferto ao poema... - que o poema... - e o grilo - sim os grilos ... - grila-grilam – cricrila - estrilam... - Ouça... ouçam... Ouve (?)... Estão ouvindo? (...) ... Tudo tão vago tão raso tão rente e o profundo e o mais aparente rente a mente a do poeta que quando entregue ao poema cai em si e em sina - a de furtá-lo do velado mente, mente o poema, mente e engana ao revelar “se” em que no desvelar... subtrai-se e então o que fazer? - sê-menos e a isso sê-mais e no ínterim do que temos(?) e teimar nisto - não ter-memo - não obter ter - ter menos em ser-mais. - sê-menos e assim... no mais... Silenciar... quedar-se quieto.

face 5 - Dorme, dorme agora dorme, dorme criança, dorme toda gente é melhor pois tudo o que corta arde dá talho e dói no esquecimento e com dor ou sem dor e só após muito frigir depois de muito burburinho é que o intento rompe um tanto menos ou por um tanto mais é que por toda a carne e por quase nada é que a carapaça frita nas duplicidade e especulações fingindo frigindo cozendo e finalmente entrega-se a pronta e silenciosa... - ...ié no silencio aturdido e pasmo que pode, voluntariamente, humanar e aquecer o poema, que aquietado, põe-se pronto e pronto... está posto sirva-se pode degustar fique à vontade. ... ié ... por só um pouco... um pouquinho que seja... um pouco de paz... o poema o poema... e ao seu e por seu meio se ajeita se adéqua e mesmo que em déficit de expressão mesmo a um expressar difícil tão difícil tropeçando deitando velamentos ainda maiores o seu desvelar mesmo que vago boiando em vagas tentativas e desajeitadas ao humanar o dito humano e que o poema o poeme ... e o poema, prisioneiro de si, nos limites daquele que o capta poeme o poema - por fim - nos coloque frente a frente de nós mesmos e em si - na verdade - é que o poema - pouco im-porta pouco mesmo pouco importa o poema se no poema não tem gente dentro.

- e se valer... o poema se achega feito amigo ou mesmo inimigo é que o poema ensina ou abisma e quando age na gente quanto mexe com a gente - e quando - ao lê-lo -  leia o que vai o que fica na gente o que nos atem e tem e vem da gente e que nos lembre que nos dê-volva aos fins afins e confins da gente que com-chega acolha ou mesmo recuse e nos recolha devolvendo algo que morde que arde que suplica e alegra e ri o que a muitos e muitos finaliza e mortifica e a outros vivifica e desdobra existências e quem sabe: - caminhe ame sinta pense e aos poucos - passo a passo - o poema nos poeme e assim – vida-a-vida - nos melhore. 


Mario Quintana

Um poema como um gole d'água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata perdida para sempre na
[floresta noturna.
Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa condição
[de poema.
Triste.
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza.