01/03/22

Mesm'Outro   -   isto não um poema 

1 . 

Escrever: - conto... um poema, uma prosa, crônica ou não 
textos - tantos e tentos ... e seus possíveis... 

Pintar: - ouvir da parede um afresco, ouver de uma tela 
tintada todo um quadro instado ao olhar...  ou ver vir dela. 

Esculpir: - moldar o barro, o gesso - fisionômicas de rostos velados 
com olhos sem mirada, bustos, troncos, corporeidades 
de olhares, posturas - gestos que almejam expressar algo ... 

Compor: - música, sonoridades, toques sonoros de notificação 
mídias sonoras sintetizadas, notações iconográficas que ao interprete 
instruído viram musicalidades permeadas de nuances sensórios. 

Computar: - dados e mais dados - dado a com-sumar, lograr 
e logar em algo que ritme e capture alguém a com-sumir. 

2 . 

O dito - aquém ou além dele mesmo (?)  

O digo por’entre aterra - seria dádiva - mas que entre dívidas 
e dúvidas pode até ser asa ou ser arma - que nos poucos talvez 
diga algo e quando diz- diz-diz-se e ao se desocultar subtrai 
vaga e vaga por sobre a mira do dito quando nos alcança 
caso alcance - adentra, caminha por’através e no toque 
brota, intenta e fere e em face às fases o roçar o signo-sino 
ao blem-blom do digo quando emerge no pouco de tudo 
que capta e diz é cadinho por cadinho que daqui e dali 
pode até aqui ressoar e quando se achega, pode até desatar 
essas tantas amarras essas travas - couraças instaladas 
grilhões de um tempo que rompe (?) e talvez diga diga 
o digo e nada, nada mais há a dizer - mas há - sempre há.  

Nada diz - nada a dizer - (?) - digo - coisa alguma que se diga dá liga 
e vai ou pode vir por’entre ou par’além - esse produto do oportuno 
que até pode romper o que vem de um instante que estala 
no momento que se deita à sentença e quando já aqui (in)versa 
camufla em face ao memento (lembrança) que se instala no reverso 
que versa e dita ao tento que tenta e tenta e tenta e afoito dialoga (?)  

ié só por - talvez - que se deixa traduzir, e mesmo assim quando traduz 
trai, trai e imantado tradiz ao que atraiu e do mesmo num outro se achega 
chega e se deixa dizer o que de si traz daquilo que diz e a isso iça e pode 
até dar alguma liga ao que do pré-existente parelha, se aparelham 
em coisas e mais coisas e por (in)puro que seja ou por puro pavor 
que do mesmo vá ao caos que do leque - entrópico - que se abre 
se adéquam e cristaliza gerando grades - jorros de regras ditas 
civilizatórias - regulando tantos e tontos reativas, ações falseadas 
que a torta e a direita a-destram em intermináveis métodos 
de controle à destros e sinistros (em que a origem fica perdida 
na história) - produzindo largos e longos estreitamentos de idéias 
e ideais chagas condicionantes e máculas de vivências de linguagem.  

E é na medida da pega, na cata que do mesmo - mesmo que de empréstimo 
é que quase - sempre - sujeitam o sujeito e o objeto - a-destram em catar 
das réstias o que resta de algo e dos ritmos que por fim regem e em massa 
impõem dados, dados e mais dados que aos trancos e barrancos por aqui 
passam e do mesmo que aos pedaços os percalços os dê - de um dado 
uma imagem, um som, um texto, uma voz que passe e talvez, devido 
as escolhas no-aqui, do-que-aqui expresse algo e nesse algo alcance 
mesmo por acidente - diga e par’além, diga algo e seja dito e que 
do que se diz, diga - para que o digo então baixe e se (a)presente. 

Na imersão do instante... - ... que diz ... 

O dito – dito(?) luminoso - ins-pira, com-diz, in-duz e produz 
e ao produzir, ex-pira, exala, espalha doçuras, ranços e ira 
e no mergulho pode anunciar por sobre a malha do sutil 
que emerge e ainda fora do verbal, sujeita o tempo e o poema 
ao ser dito captura-o e traz pra de fora e ao dizê-lo o que vem 
chega de súbito, instaura, in-tenta e até pode dar livras ou cárceres 
e ao vê-lo – mente - inventa... Ao falar, olhar, ao dizer, como diz 
livrar-se disso tudo, livrar-se do livro ao vê-lo, ouvir dele, lê-lo 
viver em voz alta o que se lê, ouve ou vê das coisas e não coisas 
do ocaso que acaso aqui se tocam... - ié tão frágil, tão frágil 
o que aqui insiste, ex-siste e intenta.  - dada a existência.  

3 . 

O existir intenta (?) insiste - dada à existência - está aqui 
sempre esteve - mas ainda não vive e no viés de tudo 
que move e se pronuncia fatalmente vive e morre.  

Suposto o espaço se deita ao linear e dá-se em tempo 
tempo que escapa e passo a passo passa e se espaça 
em tempo - tempo de antes, tempo de depois (?) e agora 
agora-agora, tempo que imprime, que oprime e ilude.  

A vigorar... o in-sistir in-tenta - dado a ex-sistência   

Se-se privam (d)as significâncias - (in)voluntária os sentidos 
se embotam emoldurando o mesmo e o outro - mesm’outro 
a palavra colapsa ao pronunciar e em ondas os sentidos 
turvam as águas, não alenta e o sopro que roça a língua 
oxida, aterra a entidade viva que entra em com-bate 
e submerge ao subterrâneo da linguagem, face às fases 
do dito que brotam arremessando e se remetem a um outro 
que atabalhoada-mente e não conecta, não interagem 
não dialoga e se embolam, diabolam, sem nada, nada 
com-par-trilham e erguem-se muros, em auto-anulação 
adiam e re-jeitam-se e nada, nada tocam, ausência e deserto 
labirintos sem guia e o que pode vir da língua sobrevêm 
ao ente-vivo, inana e nada relaciona, não age, nem reage 
nada pro-move, provem  e de vaga em vaga, estanca 
assustado, estagnado... e espera...  espera...  

Ávida - emoldurada objeta - o mesmo e o outro num 
outro e um outro ainda - sujeito e objeto em pausa 
sujeitam-se - está aqui mas ainda não vive - obra parada 
não-mirada pendurada em parede, aprisionada em livro 
fechado não lido, estacionado em estante, vislumbres 
de idéias não dedilhadas, que não tocam, não desce 
às mãos - um quadro não visto - olvidado em parede.  

Desemoldurar o que se passa na obra que passa 
que passa a ser-para, ser-com e caminha docemente 
com-vive e circula com o que aqui vive e entre-fica.  

Confinamento espacial, represamento, tempo cristalizado 
moldado no "bi" e no “tri” dimensiona, in-siste, per-siste (?) 
em lugar criado dedicado o artífice é dado à'feitos, desde o início 
tudo aqui, temporalidade suspensa estanque em seus moldes 
existência estática - silenciosa - paciente espera...  

O perceber tangencia, com-vive e causa seus efeitos 
ié através de com-vivência prolongada que a idéia 
já múltipla, se achega e afeta, apropria-se e no tempo 
discorre e no decorrer quando emana se dá no tempo (?) 
é aí que aparenta deitar-se ao linear e aos seus efeitos 
privado de sentir, de pensar, ao expressar nada volitam 
ao se apossar à cata de algum lugar para estar - o aí 
criativo - no lugar mesmo, cria o dizer e ao dizer o dito 
escondido - bem escondidinho no digo - digo: vai para 
com-para, para-com, acende fagulhas ao se dar e dá-se 
incendiando o espaço que inter-loca e vigora e consigo 
mesmo e com o outro - com outros - com-versa.  

Inventa dinâmicas, velamentos (?) e o artífice, em perrengue estanca 
e em seus modos seus moldes, hábil trama e encalacra lugares, em lugar 
de alçar vôos e se encarceram a num canto, um cantinho - criado - qualquer 
que seja, apegado em desmesurados processos que sustam e assustado 
se emprega e debruçando se deita, cessa cansa do dito, da fala, em dizer 
o que vem dos olhos que sussurram no cantar do digo.  

Comendas, encomendas, contendas que não dão livras, escravizam 
coisicam, não dá liga e nada, nada mais se encontra aqui de vivo.  

Dentro e fora - ao observar - quando atento - nem dentro nem fora 
propriamente alcançam as constantes inconstâncias da historia 
e de seus possíveis - e fora, lá fora - ao observar - de um lado 
e de um outro o que engendra se instala convenientemente 
voluntário - e dentro bem dentro - quando atento - observa 
nas constantes e das inconstâncias da história o que potencializa 
e o que brota de seus possíveis - à vigorar - dentro e fora   

Dentro daquele que aprecia no que adentra, observa que é
devido 
que é no aí de um instante que atento é que se dá
o além, o aquém 
do “digo”, é ali onde a linguagem vivifica
age e gera, produz frente a presença histórica 
e à vida mesma
que ora vai, que ora vem e é a “ela” 
com suas vagas, vogas
sendas e giros que tudo gira 
e gira, a tudo e a todos...
permeados, qualificado em ser 
aos - sentidos, e de multi... 

- as significações.  

Se-se privam - a vivência, aborda ou aborta, nubla ou dá estio 
internam por bem seus intentos quando apercebidos e se tocam 
roçam, resvalam e faz contato, produz, persistem, insistem 
e o hábil gera intentos, iluso tece ao existir e nas prés e nos prós 
de-ter-minam posições -  aqui, duplicidades moldam o ente vivo...  

Está aqui, sempre esteve, no aqui do aí-criativo (?) mas ainda não vive. 

O início, o meio, o fim, tudo sempre esteve ali em processo
desde o início 
tudo ali, temporalidade suspensa, estanque
em modos e moldes, existência 
estática, silenciosa espera
paciente em tangenciar privada de sentir, de pensar 
na percepção
das coisas e se ancora onde pode e conforme as condições 
dadas privam-se por conveniência por inconsistência e convivência
prolongada 
e a idéia a idéia o a ideal instala-se e necessariamente
reflexiva (?) 
e de um só estalo e nada nada volita nem no espaço
nem em tempo 
pode o aí-criativo construir o lugar essa base onde
o incriado se achega 
e pousa e colhe e acolhe mesmo que subtraindo 
o aqui onde o dito real 
ocorre, e inevitavelmente cria a morada
que é câmbio entre o mesmo 
e o outro sem que aja “diálogo”  
que nos humana sucumbe sem interlocução não há como
se instaurar o espaço de vigor aí padece, míngua, falece. 
 

ié - na medida da pega, dos empréstimos do que capta e causa 
efeitos múltiplos aos passos, que dado, o alcance e os percalços 
o caminhar do digo e talvez vaze por frestas, passe por entre escolhas 
que do aqui, do mesmo, do outro se relacione e já aqui liberte ou oprima 
não importa, importa e agarra o que capta e traga pra cá o digo e diga algo 
de presente de graça e desemoldure o quê que na obra passa e passe e ser
para 
e caminhe e com viva com o que em ti fique e viva… já que existe.  

Sentir, pensar, traduzir as sentenças, os diálogos e o que neles é
pronunciado: - 
sensações, impressões, idéias, volições, representações
afeições e seus 
efeitos, seus de-feitos e a vida, a arte em elevada esfera
e que possa no-aqui 
no-aí onde in-sistimos e ex-sistimos adentre naquele
que aprecia, par’além 
de degustar o degustado, mastigar o mastigado
e não estanque, nem se 
empanturre, mas que, mergulhado no instante
luminoso em que observa 
atente; ié no-aí que se dá quando dá-se ao além
e no aquém em que o dito 
diga... aí... aqui... onde, o dito real - o digo - ocorre...  

No aí, aqui, ali, no lugar onde a linguagem ocasione e alce a existência
vivi-fique e aja e gere, produzindo frente a presença histórica e à vida 
mesmo a essa vida e a nossa arte, que ora vem ora vai, mesmo que subtraia 
enquanto se desoculta e assim adicione multiplicando e não nos divida 
em combate que mais valia do que vale ao aí do criativo e à criação.  

- a arte não necessita ser paterna, nem materna. 

(...) 

* pois - então que seja - que seja mais fraterno, para que os dias 
e as noites possam ser oportunamente solidários...   e ela... ele... 
é ...  você mesmo... mesmo que num outro... e outro... e outro...  

(...)

O que vige, rege com suas vogas, suas vagas
suas sendas, giras e giras, giros em tudo, 
em todos
permeando e permeado, qualificado em ser - aos -
através dos sentido 
e além, par’além das muitas
múltiplas significações. - 
Então, mesmo no vai e vem
então vai - vige - rege - vem em arte ao que sobe
e desce erra 
e cai... Manifeste-se-o-ser - em arte

- (...)

- mesmo que em m’arte

- (...) 

- ou em outro lugar qualquer. 
 

- minh’arte... - su’arte… 

- a roçar... - a roçar-me... 

- a roç’Arte... 


w.a.rossatto 

No recôndito ecoa a voz do universo. 
O irredutível. O uno. O singular. 
O tempo que condensa em si todos os tempos. 
Onde o amor pelo amor do outro 
é também um modo de amá-lo. 
E de amar-se.

(Um olhar para além do olhar - frag. de Sérgio A. Sardi)

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