01/03/22

o poema o poema

o poema o poema 

face 1 - a casa o lugar (?) morada (?) o acaso o ocaso caso quando há um quantum no capto na cata no cata-cata que no tempo gera e habita caso dê guarida nele e dele reprisa pisa e repisa o que aqui se passa e repasse num canto que mexe e que remexe no que já em terra - terra-terra - e sola - que solo?

- já em terra afofa e semeia desponta verte e desabrocha e galga pro lado de fora e envasa. 

- ié tão breve tão breve é o espalho o pólen o fruto - que fruto? - fruitivo?

a espera o súbito o susto o indício a semência a semente o bulbo o broto o mote que aflora e brota o início a haste o cuido a planta a flora a água a água a busca a rega o brusco o viço aflora e vasa de dentro pra forra na farra de luz&sombra e se-diz-diz-se: luminoso... 

- luminoso o instante - Luminoso?

e o bobo o bobo pega e na pegada se apega e neste pega-pega pega gosto pelo vasto e a flor que de tão breve tão breve poliniza espalha e dá o frutos - que fruto? - fruitivo, 

- degustando ao sabor do inútil. 

- naquilo do que é não é nem é nem não é degusta no assim disto isso-isso é nisto então que sabe que é disso que vem... e vai e insta ao sabor desse algo dito útil e do inútil e daquilo que se colhe o suplico o suplício o peço ora em modo ígneo ora em mero e efêmero feito na mera e errante farto se perde na pura incapacidade de conter frear a língua que condicionada pousa em modos de redundância e sedução. 

- luxuriooosa ... vaidosa ... vaga... vaga... e vaga em tantos com ou sem rumo sofre e sofre pincelando paraísos purga em reino de tolos turvando as águas toando entorna derruba rebela unha arranha arruma essa bagunça por toda casa e trisca rasga os sentidos ilhando almejos e aí sidera alucina esgoela e narra faminto por descaminhos confundindo ainda mais encalacrando num canto um cantinho qualquer que seja e esquece repassa e passa...

- passarão... passou...

- passarinha toda carne por entre ramos por galhos povoados por multidão de vozes trinadas de diabretes alados. (passarinho devorando passarinho por ímpetos territorialistas). 

passarinha a carne toda corporeidade sob as garras do concreto e encerra. 

- contamina e dissolve e seduzido cai brada e a torta e direita obtusa diz em alto e bom tom tudo aquilo que sempre dá no mesmo e em queda livre e pelos giros gira-gira em experimentar o já experimentado privando-se se espremendo ansioso e inquieto mastiga e mastiga o mastigado naquilo que não é e nem nunca será e a ninguém pertencerá daí o atrito o conflito o rosnar e o rugir o grito e toda essa barulheira. 

- o inútil o engano... e o grilo... o grilo estrila... 

- o estrilo dos grilos nas noites... ah... esse grilo... grila... grila-grila grilo... grila... 

- Ouça ... Ouve (?)

(?) - vem grita - vai grita - grila-grila grila cricrila rompe esse grilhão que limita tira o nó do cerne d’alma ou nina nana canta a bocca-chiusa faz naninha canta nana-neném dormita e quebra o galho o ramo a ave a asa arvora o poema e o poema dorme, dorme - dorme-dorme o pássaro o cerne que engaiolado te pega, pega, pega e ousa voa avoa voa...  vai ...

vai, vai, vai, disse o pássaro, o gênero humano não pode suportar tanta realidade. - T. S. Eliot -

- vai... vai... escapa sai daqui, livra o lugar disso tudo. 

- que lugar ? não há um lugar não há nenhum lugar uma morada possível que nos fixe dado o ímpeto que nos aprisiona em tremendo burburinho. 

- pois então que passe que passe então já que vive e morre passarinha mesmo que num breve, pois o perene se esconde no instante e já que dentro entre se adentre e põe-se pra fora e vai... vai... sai... sai daqui... sai... 

- vai par-além ou par-aquém e apreende dê asas e afira ou põe-se ferido e a deriva essa ofertada maquiada liberação que manipula almejando controle encalacra-nos  nessa inoportuna cela ferrosa essa forma que fere afere e cala fundida no pó em pó e no pós entorna gélida e range fria tão fria grade que encarcera e conduz a planos de esquecimento a desfrutar mero deguste dos sentidos e estes mesmo que incompletos falhos o poema exaspera desespera e um vazio o vazio que o contém e  no curso em curso do que soca goela abaixo e só por um tris é que trisca risca e arrisca, mesmo que atabalhoadamente, num rascunho mesmo que jamais definido ou claro mesmo garatujando em miséria essa miséria de um não mórbido do não do poema, ao não do poema, o não no poema.

... vai e cai, cai e vai, vai indo assim e assado enche cabeças e corações com tanta inutilidade, blablarizando-nos mais e mais e de nica em nicas, necas, necas de pitibiribas e o precioso contato o leve toque que nos poema nos breves abrevia ainda mais o que o toque do instante dá e instaura

Que bebe? - Que come? - Que sorve? ...Palavras, palavras e lavras, ditas mágicas, loa de vida e morte e mais mortes que esse cativeiro encerra... e o poema... bem... o poema é o poema e quando poema o poema é o quê o bebe que o come que o sorve absorve e assim o sol-vê no escuso, asséptico? profilático?

 ... e no escuro no breve que de longe pressente e vem e se presenta a saída a porta que aos poucos e gradualmente chega ou simplesmente se esvai num tanto num pouco sem dele jamais deixar vir ser ou estar no será do poema e num misero ou rico canto se achega conchega  vem residir na casa na-morada que o poema que mesmo sem ter um lugar à habitar se escancara e põe-se aberto e pardalinha... e o poema é um gole d’água bebido no escuro. 

... a sina o sino, este signo quase mudo que enuncia badala anuncia - talvez - o fim de tanto, já tantãs, tantas e tantas especulações que teimosamente, ainda assim nos dá leme os remos a mover o poema que não nos deixa em total abandono e dentre os tantos dos possíveis que nos poeme adentre e toque o barco... e... finalmente  aporta... te enreda... e te enredando... te abarca.

 

face 2 - de emenda em emenda o mergulho o medo o remedo a remenda os remendos a cota a conta a dúvida a dívida que repeteca-nos nesta pauperra trava e emperra reprisa reconta recôndito recorta comprime à caber, subtrai-se o toque o contato os contatos e as tormentas que ferem espetam espinham e arrepia e o suspiro o suspiro a pira do roçar que eletriza e um eco o eco que orgasma que abisma no alto e o arbítrio o baixo o mote que teima em pulsar num tema num perfil e perfila em tal pulso que palpita, pois que livre e aos pedidos a perdida os perdidos, tantos, tantas aos bens o bem o não os nãos do bem o bem mesmo, (livre?). 

-  o eco do poema desloca perfis. - 

comenda das águas - comédia das almas as almas a alma e a grande grade que delas ao meio aos meios no meio do caminho o caminho os caminhos a trilha as trilhas de a uma pobre senda o pequeno o pequenino forçando as grandezas os olhos o olhar pregado no efêmero no sentir os sentidos todos no pensar no pesar no repenso no recinto  o ressentir que num gole no gole - “um gole d’água bebido no escuro” -

- no mole no duro o muro dos descaminhos e a pedra atirada no abismo - e o “ rugir de um caos atônito. 

face 3 - pesada se pesado penada se penado leve se leve e se de longe muito longe um longo muito longo como este que o pegou e o pegou de jeito e se de longe ou perto peguei, paguei, sei que paguei, já paguei, pago ainda, pago agônico pago atônito e a esta não medida esta desconhecida ordem o caos que gera só por pouco por muito pouco mesmo não sucumbi e rugi no prensado no opresso ao apreço de sempre estar voltado ao poema, desde menino e quanto a pedra   bem, pedra só pedra abaixa e pega ela e atira num largo impulso... longe... bem longe...

mesmo que por tortos - todos os caminhos - é nas noites nos dias escuros e de claros enigmas que os monstros surgem mas monstro já não medra... pois mostre escancare o que enreda o que enreda nos lábios nas mãos nos dedos de-monstre o que insta e se acaso se instale instale-se com ou sem lira ou em ternas mesmo que aterradas no mole no duro não perdure muito nas margens e o rio os rios o rio corrente rio que influi rio que flui rio contente pois redivivo e a quantos for... o rio, o rio - rio fluente - e a vida verte.

... e o horror que alheia que abocanha o insone fica à espreita o belo o belo se rebela se debela e o feio o dito feio  a fera a fúria a besta o ferro - ferro a ferro - vis-à-vis o nunca no fora, tô fora, tô fora de tudo isto já passei. - já passou fui embora não estou mais aqui é mosaico vivo é prosaico semelhante em semelhante que fere e oferta ao sofrer os reveses os reversos da carne essa carne morta que maquina e roça e rosna flamejante na espera, esperança inda que lírica em ser-aí - ser-com - ser-para ... ... ser-pra-quem ...

[ ? ] ... vive e morre come mora põe em vigília contínua e no pó lembra da difícil jornada que ex-clava que es-crava e escreve e escreve e escreve... da dor da orbe de como desce de como sobe e de um suposto amor obtido. e escreve e escreve enfim tão somente e leva ora chumbo ora ferro ora pluma ora leve ora rijo ora belo ígnea a fala a escrita ígneo o poema que ainda assim, se desatento, escorrega e foge despenca e em queda livre cai... dura tanto quanto pesa ou flutua recusa tormentas revida contendas levando ao desuso e desanima desiste definha,  não vê (?)... -

vê e fica e quando vai fica vela e turva suprime e labirinta e enviés enubla sem pátria sem prato sem teto sem nota moeda qualquer que seja ou verba ao verbo e estanca sem uso e por fim forçada, na marra, aquieta-se silente são ou doidecido dorido cala e esquecido - contentamento súbito - surge incólume e dorme dormita descansa inquieto e sedado ... em pausa ( ... ) .

 

face 4 - Matura. luz lamparinada... e verde-grila verdegrila tua câmara de horrores debela mesmo ao outro o mesmo que dá mesmo que em forra fora do tempo no tempo mesmo...

e o grilo... ah o grilo - sim o grilo - os grilos que antecedem a entrega e entrego - oferto ao poema que o poema - e o grilo  - sim os grilos... - grila-grilam – cricrila - estrilam ... 

Ouça... ouçam... Ouve (?)... Estão ouvindo? (...)

Tudo tão vago tão raso tão rente e o profundo e o mais aparente rente a mente a do poeta que quando entregue ao poema cai em si e em sina - a de furtá-lo do velado mente, mente o poema, mente e engana ao revelar “se” em que no desvelar... se subtrai e então - que fazer ? - sê-menos e a isso sê-mais e no ínterim do que temos(?) e teimar nisto - não ter-memo - não obter ter - ter menos em ser-mais. sê-menos e assim... no mais... Silenciar... quedar-se quieto.

 

face 5 - Dorme - dorme agora dorme - dorme criança - dorme toda gente - é melhor - pois tudo o que corta arde dá talho e dói e no esquecimento só após muito frigir depois de muito burburinho é que o intento rompe o casulo um tanto mais por um tanto menos é que por toda a carne e por quase nada que a carapaça frita pelas duplicidades e especulações fingindo frigindo cozendo é que finalmente se entrega pronta e silenciosa... ié no silencio que aturdido e pasmo pode voluntariar-se a humanar e aquecer o poema - que aquietado - põe-se posto... pronto... está posto sirva-se pode degustar fique à vontade - ié por um pouco só um pouco - um pouquinho que seja de paz...

e o poema navisfera toma rumo e a seu meio horizonta ajeita rotas parenta linha reta mas é curva geodésica se adequa nessa reta mas apenas em pequenos horizontes e mesmo em déficit de expressão mesmo num expressar difícil tão difícil que tropeça deitando velamentos ainda maiores em desvelar e boiando em vagas desajeitadas tentativas em humanar de fração em fração imensa o dito humano .

e o poema prisioneiro nos limites daquele que capta ainda assim decide colocar frente a frente em si - na verdade poema - quando poema – coloca o mesmo a um outro e outro e poema - na verdade mesmo é que - pouco im-porta pouco importa o poema – que se dane se o poema se porta ou não ex-porta e se não tem gente dentro - a se valer - se o poema - quando poema – quando chega a gente - se-se achega e feito um amigo ou mesmo um inimigo ao lê-lo na sua mira ensina abisma e nos põe age - navisfera a gente - mexe sacode bagunça e remexe o que vai na gente.

- ao ler o que vem dele e o que vai nele o que tem e se atem e ao que fica no que toca do que lembre e relembre nos dê-volva os fins mesmo que por volteios e nas voltas e mais voltas afins em-volva e com-chegue até lá nos confins da gente dos que encolhem nos que acolhem a gente mesmo que em recuo na recusa recolha o quê que nos devolve algo que alise que roce ou coce ou morda que arda e que alegre e ria com a gente com o quê que em muitos finaliza e mortifica e a outros vivifica e desdobra existências e - em-caminhe pise repise pense sinta repense res-sinta ame e emane e aos poucos - passo a passo - quem sabe o poema chegue venha até nós e nos poeme - e de vida-em-vida assim nos melhore.



Transmirando o Poema

 - deixar rugir o caos atônito -

- o eco do poema desloca perfis -

- o poema é uma pedra no abismo -

- um poema como um gole d’água bebido no escuro -

 
- fragmentos de Mario Quintana 

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