07/04/20

o poema o poema

Transmirando o Poema

- deixar rugir o caos atônito -
- o eco do poema desloca perfis -
- o poema é uma pedra no abismo -
- um poema como um gole d’água bebido no escuro -
- fragmentos de Mario Quintana

o poema o poema

face 1 - a casa a morada (?) o lugar ( ? ) do poema - o como o onde o quando o quanto o capto o quantum a cata o vindo do tempo e em tempo o tempo no tempo do poema e o poema que assim pisa e repisa e reprisa assola e o ser o estar aqui que passa repassa aterra e a terra terra-terra o solo - que solo?

e pausa e pousa o indício o inicio semência semente plantio a planta o cuido a mirada da flora a água a rega a busca a espera o súbito no susto da vasa que o poema no fora no dentro na farra na forra e que o poema que o poema o poema e diz-diz-se: - luminoso   -   luminoso o instante.   -   Luminoso? 

- o bulbo a haste a flora que desponta desabrocha... e o bobo se apega e pega o pega-pega do poema o gosto o sabor a saber a galga na vaga no vasto no vaso que o poema - a flor aflora e fora é tão breve tão breve o pólen o espalho o fruto, que fruto? - fruitivo? e degusta ao sabor daquilo que é não é nem é nem não é e nisso o assim esse nisso no então nisto e  saber que disto vem... e insta ao sabor do algo útil e do inútil - à colher e o suplico no suplício o peço na mera ora em modo ígneo ora em mero feito e errante e farto a pura incapacidade em conter frear a língua que condicionada e por muito pousa em modos de sedução. 

– luxuriooosa... vaidosa vaga... vaga e vaga em tantos aos poucos nos vôos com ou sem rumo voa e canta e sofre e sofre pincelando paraísos inventa purga em reino de tolos e turva o tom e tona o torto entorna derruba rebela unha arranha arruma bagunça a casa toda e trisca rasga os sentidos as ilhas do almejo aí sidera alucina e narra esgoela e faminto caminha por descaminhos confundindo ainda mais o canto a um canto  um cantinho qualquer que seja e esquece e repassa e passa... passarão... passou... 

 ...passarinha a carne toda corporeidade do que nos encerra nestas garras do concreto que encara e contamina e cai - seduzido a bradar nas tortas e direitas obtusas e dizer em alto e bom tom o de sempre o mesmo daquilo que não é e assim queda nos giros nas giras em experimentar o experimentado privando espremendo ansioso inquieto e mastiga mastiga o mastigado creditando-nos em acreditar naquilo que não é nem nunca foi ou nos pertencerá ... daí o atrito o conflito o rugir e rosnar o grito a barulheira do inútil o engano... 

e o grilo... o grilo das noites... 

ah o grilo...  Ouça...    

( ? ) vem grita, grita - grila grila-grila cricrila rompe o grilhão que limita tira o nó do cerne d’alma ou nina nana canta a bocca chiusa faz naninha canta nana-neném dormita e quebra o galho o ramo a ave a asa arvora o poema e o poema dorme, dorme - dorme-dorme - o pássaro o cerne que engaiolado te pega, pega, pega e ousa voa avoa voa...  

vai ...

... (* vai, vai, vai, disse o pássaro, o gênero humano não pode suportar tanta realidade.) ... T. S. Eliot

... vai... escapa daqui, livra o lugar disso tudo - que lugar? Não há lugar não há morada, dado o ímpeto que aprisiona fixa-se em tremendo burburinho - pois então que passe, passe então já que vive e morre passarinha mesmo que num breve, pois o perene se esconde no instante e já que dentro entre se adentre e põe-se pra fora e vai... vai... sai... sai daqui... sai... vai par-além ou par-aquém apreende e dê asas afira ou põe-se ferido e a deriva nessa  ofertada maquiada liberação que manipula almejando controle encalacra-nos  nessa inoportuna cela ferrosa essa forma que fere afere e cala fundida no pó em pó e no pós entorna gélida e range fria tão fria grade que encarcera e conduz a planos de esquecimento a desfrutar mero deguste dos sentidos e estes mesmo que incompletos que falhos o poema exaspera desespera e um vazio o vazio que o contém e  no curso em curso do que soca goela abaixo e só por um trís é que trisca risca e arrisca, mesmo que atabalhoadamente, num rascunho mesmo que jamais definido ou claro mesmo garatujando  em miséria essa miséria do um não mórbido do não do poema, ao não do poema, o não no poema, que vai e cai, cai e vai, vai indo assim e assado enche cabeças e corações com tanta inutilidade, blablarizando-nos mais e mais e de nica em nicas, necas, necas de pitibiribas e o precioso contato o leve toque que nos poema nos breves abrevia ainda mais o que o toque do instante dá e instaura ... 

Que bebe? Que come? Que sorve? ... 

Palavras, palavras e lavras, ditas mágicas, loa de vida e morte e mais mortes que esse cativeiro encerra... e o poema... bem... o poema é o poema e quando poema o poema é o quê o bebe que o come que o sorve absorve e assim o sol-vê no escuso, asséptico? profilático? e no escuro no breve que ao longe pressente vem e se presenta ... a saída a porta que aos poucos e gradualmente chega aporta ou simplesmente se esvai num tanto num pouco sem dele jamais deixar vir ser ou estar no será do poema e num misero ou rico canto se achega conchega  vem residir na casa na-morada que o poema que mesmo sem ter um lugar à habitar se escancara e põe-se aberto e pardalinha...   e o poema é ...   * um gole d’água bebido no escuro.   

... e a sina o sino, este signo quase mudo que enuncia badala anuncia - talvez - o fim de tanto, já tantãs, tantas e tantas especulações que teimosamente, ainda assim nos dá leme os remos a mover o poema que não nos deixa em total abandono e dentre os tantos dos possíveis que nos poeme adentre e toque o barco... e... finalmente  aporta... te enreda... e te enredando... te abarca.

face 2 - de emenda em emenda o mergulho o medo o remedo a remenda os remendos a cota a conta a dúvida a dívida que repeteca-nos nesta pauperra trava e emperra reprisa reconta recôndito recorta comprime à caber, subtrai-se o toque o contato os contatos e as tormentas que ferem espetam espinham e arrepia e o suspiro o suspiro a pira do roçar que eletriza e um eco o eco que orgasma que abisma no alto e o arbítrio o baixo o mote que teima em pulsar num tema num perfil e perfila em tal pulso que palpita, pois que livre e aos pedidos a perdida os perdidos, tantos, tantas aos bens o bem o não os nãos do bem o bem mesmo, (livre?). 

- o eco do poema desloca perfis. 

... comenda das águas ... comédia das almas das armas e a alma e a grande grade delas em meio aos meios no meio do caminho no caminho os caminhos e a trilha as trilhas de a uma pobre senda vagada no pequeno o pequenino forçando as grandezas os olhos o olhar pregado no efêmero no sentir os sentidos todos no pensar no pesar no repenso no recinto  o ressentir que num gole no gole - “um gole d’água bebido no escuro” -  no mole no duro o muro os descaminhos e a pedra atirada no abismo e o “ rugir de um caos atônito.  

face 3 - pesada se pesado penada se penado leve se leve e se de longe muito longe um longo muito longo como este que o pegou e o pegou de jeito e se de longe ou perto peguei, paguei, sei que paguei, já paguei, pago ainda, pago agônico pago atônito e a esta não medida esta desconhecida ordem o caos que gera só por pouco por muito pouco mesmo não sucumbi e rugi no prensado no opresso ao apreço de sempre estar voltado ao poema, desde menino e quanto a pedra   bem, pedra só pedra abaixa e pega ela e atira num largo impulso... bem longe... longe... mesmo que por tortos todos os caminhos é nas noites nos dias escuros e de claros enigmas é que os monstros surgem mas monstro já não medra... pois mostre escancare o que enreda o que enreda nos lábios nas mãos nos dedos de-monstre o que insta e se acaso se instale instale-se com ou sem lira ou em ternas mesmo que aterradas no mole no duro não perdure muito nas margens e o rio os rios o rio corrente rio que influi rio que flui rio contente pois redivivo e a quantos for... o rio, o rio  rio fluente - e a vida verte. 

... e o horror que alheia que abocanha o insone fica à espreita o belo o belo se rebela se debela e o feio o dito feio  a fera a fúria a besta o ferro - ferro a ferro - vis-à-vis o nunca no fora, tô fora, tô fora de tudo isto já passei já passou fui embora não estou mais aqui é mosaico vivo é prosaico semelhante em semelhante que fere e oferta ao sofrer os reveses os reversos da carne essa carne morta que maquina e roça e rosna flamejante na espera, esperança inda que lírica em ser-aí - ser-com - ser-para ... 

... ser-pra-quem ... [ ? ] 

... vive e morre come mora põe em vigília contínua e no pó lembra da difícil jornada que ex-clava que es-crava e escreve e escreve e escreve... da dor da orbe de como desce de como sobe e de um suposto amor obtido. e escreve e escreve enfim tão somente e leva ora chumbo ora ferro ora pluma ora leve ora rijo ora belo ígnea a fala a escrita ígneo o poema que ainda assim, se desatento, escorrega e foge despenca e em queda livre cai... dura tanto quanto pesa ou flutua recusa tormentas revida contendas levando ao desuso e desanima desiste definha... não vê (?)... vê e fica e quando vai fica vela e turva suprime e labirinta e enviés enubla sem pátria sem prato sem teto sem nota moeda qualquer que seja ou verba ao verbo e estanca sem uso e por fim forçada, na marra, aquieta-se silente são ou doidecido dorido cala e esquecido - contentamento súbito - surge incólume e dorme dormita descansa inquieto e sedado 

... em pausa ( ... ) .

face 4 - Matura. Tênue luz. Lamparinada ... verde-grila - ver-degrila tua câmara de horrores ver-de-grila debela mesmo ao outro o mesmo que dá o fora e mesmo que em forra fora do tempo no tempo mesmo fora do mesmo...

o grilo... ah o grilo - sim o grilo - os grilos que antecedem a entrega – e entrego - oferto ao poema... - que o poema... - e o grilo - sim os grilos ... - grila-grilam – cricrila - estrilam... - Ouça... ouçam... Ouve (?)... Estão ouvindo? (...) ... Tudo tão vago tão raso tão rente e o profundo e o mais aparente rente a mente a do poeta que quando entregue ao poema cai em si e em sina - a de furtá-lo do velado mente, mente o poema, mente e engana ao revelar “se” em que no desvelar... subtrai-se e então o que fazer? - sê-menos e a isso sê-mais e no ínterim do que temos(?) e teimar nisto - não ter-memo - não obter ter - ter menos em ser-mais. - sê-menos e assim... no mais... Silenciar... quedar-se quieto.

face 5 - Dorme, dorme agora dorme, dorme criança, dorme toda gente é melhor pois tudo o que corta arde dá talho e dói no esquecimento e com dor ou sem dor e só após muito frigir depois de muito burburinho é que o intento rompe um tanto menos ou por um tanto mais é que por toda a carne e por quase nada é que a carapaça frita nas duplicidade e especulações fingindo frigindo cozendo e finalmente entrega-se a pronta e silenciosa... - ...ié no silencio aturdido e pasmo que pode, voluntariamente, humanar e aquecer o poema, que aquietado, põe-se pronto e pronto... está posto sirva-se pode degustar fique à vontade. ... ié ... por só um pouco... um pouquinho que seja... um pouco de paz... o poema o poema... e ao seu e por seu meio se ajeita se adéqua e mesmo que em déficit de expressão mesmo a um expressar difícil tão difícil tropeçando deitando velamentos ainda maiores o seu desvelar mesmo que vago boiando em vagas tentativas e desajeitadas ao humanar o dito humano e que o poema o poeme ... e o poema, prisioneiro de si, nos limites daquele que o capta poeme o poema - por fim - nos coloque frente a frente de nós mesmos e em si - na verdade - é que o poema - pouco im-porta pouco mesmo pouco importa o poema se no poema não tem gente dentro.

- e se valer... o poema se achega feito amigo ou mesmo inimigo é que o poema ensina ou abisma e quando age na gente quanto mexe com a gente - e quando - ao lê-lo -  leia o que vai o que fica na gente o que nos atem e tem e vem da gente e que nos lembre que nos dê-volva aos fins afins e confins da gente que com-chega acolha ou mesmo recuse e nos recolha devolvendo algo que morde que arde que suplica e alegra e ri o que a muitos e muitos finaliza e mortifica e a outros vivifica e desdobra existências e quem sabe: - caminhe ame sinta pense e aos poucos - passo a passo - o poema nos poeme e assim – vida-a-vida - nos melhore. 


Mario Quintana

Um poema como um gole d'água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata perdida para sempre na
[floresta noturna.
Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa condição
[de poema.
Triste.
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza.

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