01/03/22

 


O Fogo Dança 

O fogo dança - chispas - fagulhas luminosas ascendem dando asas aos remos e alçando vôo - e essa idéia insistente em criar semências - sementes crepitando pairando embaladas pelo ar e mãos aos remos... rema e rema - por horas a fio - navega feito um barco aéreo singrando e-venta quase etérea com um broto verde na ponta. 

A inconstância do humor dos ventos - ventania - ventarola de romper o vigor do viço, e a grande farra, uma farra de quebrar os galhos, de vergar, arqueando as forquilhas dos ramos, florescências que crescem e crescem e por entre os raios as ramagens de um sol vigoroso, um daqueles que parece que a gente pode até pegar com as mãos – um céu entrelaçado penetra enroscado no espaço escasso de uma promessa feita secretamente a ela, promessa de pousar em chão fértil e no esforço de não despencar, não cair neste frágil e fino véu, véu marinho, véu marinho negro-azulado, estreito manto - e pousar num lugar longe das espessas névoas, bem pra lá dos confins desta noite - onde nuvens não venham ocultar ou turvar o frágil espelho prateado desse raso lago. 

Espelhadas lâminas transparecem claros e escuros por sobre a cata e venta, ondulam largos gomos largas rugosidades esculpidas sobre o espelho das águas na brisa do vidro translúcido do olhar que encharcados, mareja no zigue-zague das ondas colhendo fases dos viços na tela do rosto, lugar (?) forja dos sentidos, degustes que dêem sentido às coisas as curvaturas veladas das superfícies a se desocultar e a vir tocar o súbito, o trágico ver-vir dos interstícios, aqueles, os tenebrosos, mesmo que seja só de um fogo-fátuo de uma precária dança - 

- por lenha na fogueira, encrespar toda ela e num cadinho de tempo, o caos, espaço informe que adentre e submirja e traga à tona, pouco a pouco, quase tudo que há e pode dar o embalo às vértebras fogosas da naja da língua dos ares e circum-baile - dance-dance aos rodopios nas chamas desta ciranda do fogo.  

O fogo dança - dança incólume - alumiando quase todo o caminho como a tocha de um poema se rende ao encontro, e dos contrários brota dos possíveis, busca entre os achados e perdidos os ilusos que nos dão rumos - e são tantos - tantos são os rumos - tantos os caminhos e nada sabemos de certo - nada - nada de como ir nem pra onde ir ou por onde começar - quando fora daqui. E ensaiamos.

- ensaios e mais ensaios - ao arquear as asas, redundando e ocultando sorrateiramente como sair - ir saindo de fininho deste lugar permeado de misérias  e são tantas as misérias - tantas - cheio em traçar planos e rotas de vôos, troçar das decolagens alheias - ora altas ora rasas, das aterragens.

Já perto em ‘debicar’ - nossa pipa - alçada a grandes altitudes e feito um mosquitinhos ao longe nos dê a guia aos tantos e tanto possa vir e dar um abrigo sincero, um hangar ao fôlego e nos dê liga à linha - sem cera - e valha algo. 

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