16/01/12

Herberto Helder

Sobre um Poema

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras,
ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue
pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora,
a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.

Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor, rios,
a grande paz exterior das coisas,
folhas dormindo o silêncio,
a hora teatral da posse.
E o poema cresce
tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as casas deitadas nas noites
e as luzes e as trevas em volta da mesa
e a força sustida das coisas,
e a redonda e livre harmonia do mundo.

Em baixo
o instrumento perplexo
ignora a espinha do mistério.

E o poema
faz-se contra o tempo
e a carne.
Herberto Helder...

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