16/01/12

POEMAS




O que procuras no tapete
verde que não tenha sido limpo?
Estirado como uma flecha, uma cruz,

dormes sem conforto, um peixe
dentro da baleia do corredor,
a espirrar espuma, a respirar

para todos os lados da carne.
O que pretendes me dizer?
Cuidado, filho, o chão alucina.

Meu filho, fala alto,
meu ouvido está no fim,
já não escuto a minha infância,

já não sei pensar com os símbolos,
as metáforas e os sinais.
Alguns amadurecem, a maioria cansa.




FABRÍCIO CARPINEJAR
Do livro "Meu Filho, Minha Filha" (Bertrand Brasil, 2007)


Navego (?)

Navegar - Crê!? - Crer. 

Creia, n´alguma não remota,
um sem-distância, algo em que em uma
não absurda lonjura, faz-se em face ao finito
de anima; e então, cognita,
permita somar-se ao toque.

Os sentidos, mover, levemente penetrar,
lira, clareira, cachoeira vertendo humores;
fragrância a clarear o turvo da vontade
de poder cantares nesta mina. o sonho.

Inspirando-expirar; expiar e espiar no gozo, e de
dentro olhares, a mnemo despir-se; lá,
onde tudo é silencio; que aqui inexiste! aí...

Liquidado os planos, do outro conceber os possíveis,
os do mesmo, desvelando os segredos esquecidos do navego.

sob tal desígnio - maldição e benção - benção e maldição,
prisão? - não - lugar - não, não há lugar assim
que em vago rumor ressoe aos remos dos sentidos.

Iluso, nú-vago e verbo In-corpóreo barco. 

odinha de re(s)cinto (vestindo o céu)


de pequeno, vivia
de olhar de cima
e de lá, é q havia.

e via, um elo, um alo, branquinha, 
uma ave no céu, arqueada, 
mesmo q de tempo longe 
tão perto, pertinha, q fingia susto 
e ela... ela vinha, vinha
aos poucos ela vinha. 

expiação imensa.

daqui... pequena...
é só um buraco branco
que aparece de sei lá onde.

e me dizia: 

veste o céu menino e vê se avoa, 
e eu tentava, tentava, depois, frustrado, 
via que por mais qu´eu ajustasse,
não cabia.

já hoje tô pequeno,
e de vontade, na verdade, 
voluntariamente me miúdo 
e assim, num jeito bato o olho
e imenso, e de tão grande... um sem tamanho,

aí miro naquilo em que me h´avia,
e vejo...
bem mais agora,
e assim re-vejo,
brinco, palavreio e reencarno, 
encaro... e o que de antes...
bem mais agora, é que me-
valia. 






Herberto Helder

Sobre um Poema

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras,
ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue
pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora,
a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.

Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor, rios,
a grande paz exterior das coisas,
folhas dormindo o silêncio,
a hora teatral da posse.
E o poema cresce
tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as casas deitadas nas noites
e as luzes e as trevas em volta da mesa
e a força sustida das coisas,
e a redonda e livre harmonia do mundo.

Em baixo
o instrumento perplexo
ignora a espinha do mistério.

E o poema
faz-se contra o tempo
e a carne.
Herberto Helder...

Hora-Ação a Sem-Hora Mater-Mundi

Ó Grande Mãe, que em ti nos envolve e sus-
tem em porção, que aqui nos vincula, em-ti-fica,
alenta e nos causa a trina flor da vida.

Ó Mater, a que nos agarramos em par-
tidos, alquebrados, nos mantemos ligados,
e em que rompemos de semente em semente
e brotamos e crescemos
e pulsamos e pulsamos. 

e pulsamos...

Ó àvida-Matriz, que nos gera, atomiza e afeta:
nutrindo e entre-tendo, afeitos e ilusos nossos seres,
com seus elos, seus anelos, (d´eus), de outros e eu, eu, eus...
e, seus viços, seus ser-viços, viçosos, ser-viçosos...
com suas benesses, seus prazeres, deleites, esquivas
e suplícios;seus desejos, gostos, des-gostos;
com quereres, perfumes, seus aromas e sentidos,

com sofreres...

tanta dor, tantos riscos, triz, testes, rés, risos...
suas conversas, versas, meus, seus versos, e re-versos,
seus contatos, tatos, seus indícios; com seu cato, captos,
seus toques ... e tateias... e tateios e tateios...
sempre e sempre suas dualidades e contrastes...

Ó Mãe Natura, que aquece e humana nossas partes,
apazigua, refrigera nossas almas, seus efeitos, seus apuros.
Nossos feitos, teus, os saberes, seus, os sabores.
Apura ó mãezinha, qualifica nossas buscas,
nossos encontros, seus opostos, alimento.

Ó Terra-Mãe, re-junta, re-une nova
mente aos teus filhos, porque mentem os corações,
os teus frutos; conjunta-nos a todos, a todos os que em ti,
esquecidos se lançam nas intermináveis espirais de seus ciclos
e contidos neles, a ti regressam, habituados que estão em estar contido... 

re-voltando e re-volvendo em ti, 
ocupados sempre com a peleja que experimentam do girar
constante que tua roda dá. Arre... E exaustos,
turbados, detem em entregar-se absortos
e distraídos a sugar de suas tetas o leite que verte
da sagrada flor de teus seios...
sem nada de-volver.

* * *

Cessa agora, ó Mãe, os teus extremos,

Ó Mater cessa teus conflitos, teus temores...

Ela disse... / ... e digo:

Ó Uma, com-sorte d´aquele que sem um início, deu-se, e
uma luz suave se -presenta-, um presente, em tempo justo,
e a tempo dará em lugar adequado se fará
um toque terno virá a dar-se, com carinho,
um carinho imenso, intenso,
a Ela um pulsar meigo, leve, quente...

Um Cor-ação que agora dispara "delicadamente",
sem as costumeiras armadilhas do apossar-se,
(essas coisas nossas, nunca foram de alguém)
nada meu, nada seu, tudo sempre foi, ié nosso... (é?).
desde que se saiba de-volver, vibrações, raios, tom,
som e cores, de harmonias pós-conflitos, muitos,
por vezes, inevitáveis, dito de amores:
um coração dá-me, e das mãos, nas mãos,
contatam finalmente, emana na fala, no toque,
no olhar, sem ontem, sem hoje, sem amanhã...
e sei, incomoda, mas já, "em principio"
o cultivo gradual do eterno, num só lance,
num breve, num só peito, aqui, aí, inteiro,
no exato instante que a isto consentimo-nos.

Iss(ç)o-Tudo é o que podemos ter de realmente verdadeiro aqui. 

Presença-Presente, sem véus e talvez... quando finalmente
permitirmo-nos, com, ou mesmo sem coragem,
ao Encontro, "Real", aí possamos, então, abrigar ao ontem,
o hoje transformado-transformando o amanhã, que haverá
de desvelar-se, e aqui, revelar que a vida docemente renova-se...
renasce e renascida, terna se apresenta: com seus mistérios,
ciclos a e em porção necessária, nutrindo, animando e aquece,
refrigera, causa elos, por tempo almejados, 
e para então, com Amor... Somar.

e então, e só então: poder lê-lo, lê-la inteira,
em suas já não mais obscuras leis,
mas: em suas "Livras"... Liberta, Liberto.

* Até que nascer ou morrer,

não mais nos assuste,
não mais incomode, já
não mais nos im-porte.