01/03/22

Mesm'Outro   -   isto não um poema 

1 . 

Escrever: - conto... um poema, uma prosa, crônica ou não 
textos - tantos e tentos ... e seus possíveis... 

Pintar: - ouvir da parede um afresco, ouver de uma tela 
tintada todo um quadro instado ao olhar...  ou ver vir dela. 

Esculpir: - moldar o barro, o gesso - fisionômicas de rostos velados 
com olhos sem mirada, bustos, troncos, corporeidades 
de olhares, posturas - gestos que almejam expressar algo ... 

Compor: - música, sonoridades, toques sonoros de notificação 
mídias sonoras sintetizadas, notações iconográficas que ao interprete 
instruído viram musicalidades permeadas de nuances sensórios. 

Computar: - dados e mais dados - dado a com-sumar, lograr 
e logar em algo que ritme e capture alguém a com-sumir. 

2 . 

O dito - aquém ou além dele mesmo (?)  

O digo por’entre aterra - seria dádiva - mas que entre dívidas 
e dúvidas pode até ser asa ou ser arma - que nos poucos talvez 
diga algo e quando diz- diz-diz-se e ao se desocultar subtrai 
vaga e vaga por sobre a mira do dito quando nos alcança 
caso alcance - adentra, caminha por’através e no toque 
brota, intenta e fere e em face às fases o roçar o signo-sino 
ao blem-blom do digo quando emerge no pouco de tudo 
que capta e diz é cadinho por cadinho que daqui e dali 
pode até aqui ressoar e quando se achega, pode até desatar 
essas tantas amarras essas travas - couraças instaladas 
grilhões de um tempo que rompe (?) e talvez diga diga 
o digo e nada, nada mais há a dizer - mas há - sempre há.  

Nada diz - nada a dizer - (?) - digo - coisa alguma que se diga dá liga 
e vai ou pode vir por’entre ou par’além - esse produto do oportuno 
que até pode romper o que vem de um instante que estala 
no momento que se deita à sentença e quando já aqui (in)versa 
camufla em face ao memento (lembrança) que se instala no reverso 
que versa e dita ao tento que tenta e tenta e tenta e afoito dialoga (?)  

ié só por - talvez - que se deixa traduzir, e mesmo assim quando traduz 
trai, trai e imantado tradiz ao que atraiu e do mesmo num outro se achega 
chega e se deixa dizer o que de si traz daquilo que diz e a isso iça e pode 
até dar alguma liga ao que do pré-existente parelha, se aparelham 
em coisas e mais coisas e por (in)puro que seja ou por puro pavor 
que do mesmo vá ao caos que do leque - entrópico - que se abre 
se adéquam e cristaliza gerando grades - jorros de regras ditas 
civilizatórias - regulando tantos e tontos reativas, ações falseadas 
que a torta e a direita a-destram em intermináveis métodos 
de controle à destros e sinistros (em que a origem fica perdida 
na história) - produzindo largos e longos estreitamentos de idéias 
e ideais chagas condicionantes e máculas de vivências de linguagem.  

E é na medida da pega, na cata que do mesmo - mesmo que de empréstimo 
é que quase - sempre - sujeitam o sujeito e o objeto - a-destram em catar 
das réstias o que resta de algo e dos ritmos que por fim regem e em massa 
impõem dados, dados e mais dados que aos trancos e barrancos por aqui 
passam e do mesmo que aos pedaços os percalços os dê - de um dado 
uma imagem, um som, um texto, uma voz que passe e talvez, devido 
as escolhas no-aqui, do-que-aqui expresse algo e nesse algo alcance 
mesmo por acidente - diga e par’além, diga algo e seja dito e que 
do que se diz, diga - para que o digo então baixe e se (a)presente. 

Na imersão do instante... - ... que diz ... 

O dito – dito(?) luminoso - ins-pira, com-diz, in-duz e produz 
e ao produzir, ex-pira, exala, espalha doçuras, ranços e ira 
e no mergulho pode anunciar por sobre a malha do sutil 
que emerge e ainda fora do verbal, sujeita o tempo e o poema 
ao ser dito captura-o e traz pra de fora e ao dizê-lo o que vem 
chega de súbito, instaura, in-tenta e até pode dar livras ou cárceres 
e ao vê-lo – mente - inventa... Ao falar, olhar, ao dizer, como diz 
livrar-se disso tudo, livrar-se do livro ao vê-lo, ouvir dele, lê-lo 
viver em voz alta o que se lê, ouve ou vê das coisas e não coisas 
do ocaso que acaso aqui se tocam... - ié tão frágil, tão frágil 
o que aqui insiste, ex-siste e intenta.  - dada a existência.  

3 . 

O existir intenta (?) insiste - dada à existência - está aqui 
sempre esteve - mas ainda não vive e no viés de tudo 
que move e se pronuncia fatalmente vive e morre.  

Suposto o espaço se deita ao linear e dá-se em tempo 
tempo que escapa e passo a passo passa e se espaça 
em tempo - tempo de antes, tempo de depois (?) e agora 
agora-agora, tempo que imprime, que oprime e ilude.  

A vigorar... o in-sistir in-tenta - dado a ex-sistência   

Se-se privam (d)as significâncias - (in)voluntária os sentidos 
se embotam emoldurando o mesmo e o outro - mesm’outro 
a palavra colapsa ao pronunciar e em ondas os sentidos 
turvam as águas, não alenta e o sopro que roça a língua 
oxida, aterra a entidade viva que entra em com-bate 
e submerge ao subterrâneo da linguagem, face às fases 
do dito que brotam arremessando e se remetem a um outro 
que atabalhoada-mente e não conecta, não interagem 
não dialoga e se embolam, diabolam, sem nada, nada 
com-par-trilham e erguem-se muros, em auto-anulação 
adiam e re-jeitam-se e nada, nada tocam, ausência e deserto 
labirintos sem guia e o que pode vir da língua sobrevêm 
ao ente-vivo, inana e nada relaciona, não age, nem reage 
nada pro-move, provem  e de vaga em vaga, estanca 
assustado, estagnado... e espera...  espera...  

Ávida - emoldurada objeta - o mesmo e o outro num 
outro e um outro ainda - sujeito e objeto em pausa 
sujeitam-se - está aqui mas ainda não vive - obra parada 
não-mirada pendurada em parede, aprisionada em livro 
fechado não lido, estacionado em estante, vislumbres 
de idéias não dedilhadas, que não tocam, não desce 
às mãos - um quadro não visto - olvidado em parede.  

Desemoldurar o que se passa na obra que passa 
que passa a ser-para, ser-com e caminha docemente 
com-vive e circula com o que aqui vive e entre-fica.  

Confinamento espacial, represamento, tempo cristalizado 
moldado no "bi" e no “tri” dimensiona, in-siste, per-siste (?) 
em lugar criado dedicado o artífice é dado à'feitos, desde o início 
tudo aqui, temporalidade suspensa estanque em seus moldes 
existência estática - silenciosa - paciente espera...  

O perceber tangencia, com-vive e causa seus efeitos 
ié através de com-vivência prolongada que a idéia 
já múltipla, se achega e afeta, apropria-se e no tempo 
discorre e no decorrer quando emana se dá no tempo (?) 
é aí que aparenta deitar-se ao linear e aos seus efeitos 
privado de sentir, de pensar, ao expressar nada volitam 
ao se apossar à cata de algum lugar para estar - o aí 
criativo - no lugar mesmo, cria o dizer e ao dizer o dito 
escondido - bem escondidinho no digo - digo: vai para 
com-para, para-com, acende fagulhas ao se dar e dá-se 
incendiando o espaço que inter-loca e vigora e consigo 
mesmo e com o outro - com outros - com-versa.  

Inventa dinâmicas, velamentos (?) e o artífice, em perrengue estanca 
e em seus modos seus moldes, hábil trama e encalacra lugares, em lugar 
de alçar vôos e se encarceram a num canto, um cantinho - criado - qualquer 
que seja, apegado em desmesurados processos que sustam e assustado 
se emprega e debruçando se deita, cessa cansa do dito, da fala, em dizer 
o que vem dos olhos que sussurram no cantar do digo.  

Comendas, encomendas, contendas que não dão livras, escravizam 
coisicam, não dá liga e nada, nada mais se encontra aqui de vivo.  

Dentro e fora - ao observar - quando atento - nem dentro nem fora 
propriamente alcançam as constantes inconstâncias da historia 
e de seus possíveis - e fora, lá fora - ao observar - de um lado 
e de um outro o que engendra se instala convenientemente 
voluntário - e dentro bem dentro - quando atento - observa 
nas constantes e das inconstâncias da história o que potencializa 
e o que brota de seus possíveis - à vigorar - dentro e fora   

Dentro daquele que aprecia no que adentra, observa que é
devido 
que é no aí de um instante que atento é que se dá
o além, o aquém 
do “digo”, é ali onde a linguagem vivifica
age e gera, produz frente a presença histórica 
e à vida mesma
que ora vai, que ora vem e é a “ela” 
com suas vagas, vogas
sendas e giros que tudo gira 
e gira, a tudo e a todos...
permeados, qualificado em ser 
aos - sentidos, e de multi... 

- as significações.  

Se-se privam - a vivência, aborda ou aborta, nubla ou dá estio 
internam por bem seus intentos quando apercebidos e se tocam 
roçam, resvalam e faz contato, produz, persistem, insistem 
e o hábil gera intentos, iluso tece ao existir e nas prés e nos prós 
de-ter-minam posições -  aqui, duplicidades moldam o ente vivo...  

Está aqui, sempre esteve, no aqui do aí-criativo (?) mas ainda não vive. 

O início, o meio, o fim, tudo sempre esteve ali em processo
desde o início 
tudo ali, temporalidade suspensa, estanque
em modos e moldes, existência 
estática, silenciosa espera
paciente em tangenciar privada de sentir, de pensar 
na percepção
das coisas e se ancora onde pode e conforme as condições 
dadas privam-se por conveniência por inconsistência e convivência
prolongada 
e a idéia a idéia o a ideal instala-se e necessariamente
reflexiva (?) 
e de um só estalo e nada nada volita nem no espaço
nem em tempo 
pode o aí-criativo construir o lugar essa base onde
o incriado se achega 
e pousa e colhe e acolhe mesmo que subtraindo 
o aqui onde o dito real 
ocorre, e inevitavelmente cria a morada
que é câmbio entre o mesmo 
e o outro sem que aja “diálogo”  
que nos humana sucumbe sem interlocução não há como
se instaurar o espaço de vigor aí padece, míngua, falece. 
 

ié - na medida da pega, dos empréstimos do que capta e causa 
efeitos múltiplos aos passos, que dado, o alcance e os percalços 
o caminhar do digo e talvez vaze por frestas, passe por entre escolhas 
que do aqui, do mesmo, do outro se relacione e já aqui liberte ou oprima 
não importa, importa e agarra o que capta e traga pra cá o digo e diga algo 
de presente de graça e desemoldure o quê que na obra passa e passe e ser
para 
e caminhe e com viva com o que em ti fique e viva… já que existe.  

Sentir, pensar, traduzir as sentenças, os diálogos e o que neles é
pronunciado: - 
sensações, impressões, idéias, volições, representações
afeições e seus 
efeitos, seus de-feitos e a vida, a arte em elevada esfera
e que possa no-aqui 
no-aí onde in-sistimos e ex-sistimos adentre naquele
que aprecia, par’além 
de degustar o degustado, mastigar o mastigado
e não estanque, nem se 
empanturre, mas que, mergulhado no instante
luminoso em que observa 
atente; ié no-aí que se dá quando dá-se ao além
e no aquém em que o dito 
diga... aí... aqui... onde, o dito real - o digo - ocorre...  

No aí, aqui, ali, no lugar onde a linguagem ocasione e alce a existência
vivi-fique e aja e gere, produzindo frente a presença histórica e à vida 
mesmo a essa vida e a nossa arte, que ora vem ora vai, mesmo que subtraia 
enquanto se desoculta e assim adicione multiplicando e não nos divida 
em combate que mais valia do que vale ao aí do criativo e à criação.  

- a arte não necessita ser paterna, nem materna. 

(...) 

* pois - então que seja - que seja mais fraterno, para que os dias 
e as noites possam ser oportunamente solidários...   e ela... ele... 
é ...  você mesmo... mesmo que num outro... e outro... e outro...  

(...)

O que vige, rege com suas vogas, suas vagas
suas sendas, giras e giras, giros em tudo, 
em todos
permeando e permeado, qualificado em ser - aos -
através dos sentido 
e além, par’além das muitas
múltiplas significações. - 
Então, mesmo no vai e vem
então vai - vige - rege - vem em arte ao que sobe
e desce erra 
e cai... Manifeste-se-o-ser - em arte

- (...)

- mesmo que em m’arte

- (...) 

- ou em outro lugar qualquer. 
 

- minh’arte... - su’arte… 

- a roçar... - a roçar-me... 

- a roç’Arte... 


w.a.rossatto 

No recôndito ecoa a voz do universo. 
O irredutível. O uno. O singular. 
O tempo que condensa em si todos os tempos. 
Onde o amor pelo amor do outro 
é também um modo de amá-lo. 
E de amar-se.

(Um olhar para além do olhar - frag. de Sérgio A. Sardi)

o poema o poema

o poema o poema 

face 1 - a casa o lugar (?) morada (?) o acaso o ocaso caso quando há um quantum no capto na cata no cata-cata que no tempo gera e habita caso dê guarida nele e dele reprisa pisa e repisa o que aqui se passa e repasse num canto que mexe e que remexe no que já em terra - terra-terra - e sola - que solo?

- já em terra afofa e semeia desponta verte e desabrocha e galga pro lado de fora e envasa. 

- ié tão breve tão breve é o espalho o pólen o fruto - que fruto? - fruitivo?

a espera o súbito o susto o indício a semência a semente o bulbo o broto o mote que aflora e brota o início a haste o cuido a planta a flora a água a água a busca a rega o brusco o viço aflora e vasa de dentro pra forra na farra de luz&sombra e se-diz-diz-se: luminoso... 

- luminoso o instante - Luminoso?

e o bobo o bobo pega e na pegada se apega e neste pega-pega pega gosto pelo vasto e a flor que de tão breve tão breve poliniza espalha e dá o frutos - que fruto? - fruitivo, 

- degustando ao sabor do inútil. 

- naquilo do que é não é nem é nem não é degusta no assim disto isso-isso é nisto então que sabe que é disso que vem... e vai e insta ao sabor desse algo dito útil e do inútil e daquilo que se colhe o suplico o suplício o peço ora em modo ígneo ora em mero e efêmero feito na mera e errante farto se perde na pura incapacidade de conter frear a língua que condicionada pousa em modos de redundância e sedução. 

- luxuriooosa ... vaidosa ... vaga... vaga... e vaga em tantos com ou sem rumo sofre e sofre pincelando paraísos purga em reino de tolos turvando as águas toando entorna derruba rebela unha arranha arruma essa bagunça por toda casa e trisca rasga os sentidos ilhando almejos e aí sidera alucina esgoela e narra faminto por descaminhos confundindo ainda mais encalacrando num canto um cantinho qualquer que seja e esquece repassa e passa...

- passarão... passou...

- passarinha toda carne por entre ramos por galhos povoados por multidão de vozes trinadas de diabretes alados. (passarinho devorando passarinho por ímpetos territorialistas). 

passarinha a carne toda corporeidade sob as garras do concreto e encerra. 

- contamina e dissolve e seduzido cai brada e a torta e direita obtusa diz em alto e bom tom tudo aquilo que sempre dá no mesmo e em queda livre e pelos giros gira-gira em experimentar o já experimentado privando-se se espremendo ansioso e inquieto mastiga e mastiga o mastigado naquilo que não é e nem nunca será e a ninguém pertencerá daí o atrito o conflito o rosnar e o rugir o grito e toda essa barulheira. 

- o inútil o engano... e o grilo... o grilo estrila... 

- o estrilo dos grilos nas noites... ah... esse grilo... grila... grila-grila grilo... grila... 

- Ouça ... Ouve (?)

(?) - vem grita - vai grita - grila-grila grila cricrila rompe esse grilhão que limita tira o nó do cerne d’alma ou nina nana canta a bocca-chiusa faz naninha canta nana-neném dormita e quebra o galho o ramo a ave a asa arvora o poema e o poema dorme, dorme - dorme-dorme o pássaro o cerne que engaiolado te pega, pega, pega e ousa voa avoa voa...  vai ...

vai, vai, vai, disse o pássaro, o gênero humano não pode suportar tanta realidade. - T. S. Eliot -

- vai... vai... escapa sai daqui, livra o lugar disso tudo. 

- que lugar ? não há um lugar não há nenhum lugar uma morada possível que nos fixe dado o ímpeto que nos aprisiona em tremendo burburinho. 

- pois então que passe que passe então já que vive e morre passarinha mesmo que num breve, pois o perene se esconde no instante e já que dentro entre se adentre e põe-se pra fora e vai... vai... sai... sai daqui... sai... 

- vai par-além ou par-aquém e apreende dê asas e afira ou põe-se ferido e a deriva essa ofertada maquiada liberação que manipula almejando controle encalacra-nos  nessa inoportuna cela ferrosa essa forma que fere afere e cala fundida no pó em pó e no pós entorna gélida e range fria tão fria grade que encarcera e conduz a planos de esquecimento a desfrutar mero deguste dos sentidos e estes mesmo que incompletos falhos o poema exaspera desespera e um vazio o vazio que o contém e  no curso em curso do que soca goela abaixo e só por um tris é que trisca risca e arrisca, mesmo que atabalhoadamente, num rascunho mesmo que jamais definido ou claro mesmo garatujando em miséria essa miséria de um não mórbido do não do poema, ao não do poema, o não no poema.

... vai e cai, cai e vai, vai indo assim e assado enche cabeças e corações com tanta inutilidade, blablarizando-nos mais e mais e de nica em nicas, necas, necas de pitibiribas e o precioso contato o leve toque que nos poema nos breves abrevia ainda mais o que o toque do instante dá e instaura

Que bebe? - Que come? - Que sorve? ...Palavras, palavras e lavras, ditas mágicas, loa de vida e morte e mais mortes que esse cativeiro encerra... e o poema... bem... o poema é o poema e quando poema o poema é o quê o bebe que o come que o sorve absorve e assim o sol-vê no escuso, asséptico? profilático?

 ... e no escuro no breve que de longe pressente e vem e se presenta a saída a porta que aos poucos e gradualmente chega ou simplesmente se esvai num tanto num pouco sem dele jamais deixar vir ser ou estar no será do poema e num misero ou rico canto se achega conchega  vem residir na casa na-morada que o poema que mesmo sem ter um lugar à habitar se escancara e põe-se aberto e pardalinha... e o poema é um gole d’água bebido no escuro. 

... a sina o sino, este signo quase mudo que enuncia badala anuncia - talvez - o fim de tanto, já tantãs, tantas e tantas especulações que teimosamente, ainda assim nos dá leme os remos a mover o poema que não nos deixa em total abandono e dentre os tantos dos possíveis que nos poeme adentre e toque o barco... e... finalmente  aporta... te enreda... e te enredando... te abarca.

 

face 2 - de emenda em emenda o mergulho o medo o remedo a remenda os remendos a cota a conta a dúvida a dívida que repeteca-nos nesta pauperra trava e emperra reprisa reconta recôndito recorta comprime à caber, subtrai-se o toque o contato os contatos e as tormentas que ferem espetam espinham e arrepia e o suspiro o suspiro a pira do roçar que eletriza e um eco o eco que orgasma que abisma no alto e o arbítrio o baixo o mote que teima em pulsar num tema num perfil e perfila em tal pulso que palpita, pois que livre e aos pedidos a perdida os perdidos, tantos, tantas aos bens o bem o não os nãos do bem o bem mesmo, (livre?). 

-  o eco do poema desloca perfis. - 

comenda das águas - comédia das almas as almas a alma e a grande grade que delas ao meio aos meios no meio do caminho o caminho os caminhos a trilha as trilhas de a uma pobre senda o pequeno o pequenino forçando as grandezas os olhos o olhar pregado no efêmero no sentir os sentidos todos no pensar no pesar no repenso no recinto  o ressentir que num gole no gole - “um gole d’água bebido no escuro” -

- no mole no duro o muro dos descaminhos e a pedra atirada no abismo - e o “ rugir de um caos atônito. 

face 3 - pesada se pesado penada se penado leve se leve e se de longe muito longe um longo muito longo como este que o pegou e o pegou de jeito e se de longe ou perto peguei, paguei, sei que paguei, já paguei, pago ainda, pago agônico pago atônito e a esta não medida esta desconhecida ordem o caos que gera só por pouco por muito pouco mesmo não sucumbi e rugi no prensado no opresso ao apreço de sempre estar voltado ao poema, desde menino e quanto a pedra   bem, pedra só pedra abaixa e pega ela e atira num largo impulso... longe... bem longe...

mesmo que por tortos - todos os caminhos - é nas noites nos dias escuros e de claros enigmas que os monstros surgem mas monstro já não medra... pois mostre escancare o que enreda o que enreda nos lábios nas mãos nos dedos de-monstre o que insta e se acaso se instale instale-se com ou sem lira ou em ternas mesmo que aterradas no mole no duro não perdure muito nas margens e o rio os rios o rio corrente rio que influi rio que flui rio contente pois redivivo e a quantos for... o rio, o rio - rio fluente - e a vida verte.

... e o horror que alheia que abocanha o insone fica à espreita o belo o belo se rebela se debela e o feio o dito feio  a fera a fúria a besta o ferro - ferro a ferro - vis-à-vis o nunca no fora, tô fora, tô fora de tudo isto já passei. - já passou fui embora não estou mais aqui é mosaico vivo é prosaico semelhante em semelhante que fere e oferta ao sofrer os reveses os reversos da carne essa carne morta que maquina e roça e rosna flamejante na espera, esperança inda que lírica em ser-aí - ser-com - ser-para ... ... ser-pra-quem ...

[ ? ] ... vive e morre come mora põe em vigília contínua e no pó lembra da difícil jornada que ex-clava que es-crava e escreve e escreve e escreve... da dor da orbe de como desce de como sobe e de um suposto amor obtido. e escreve e escreve enfim tão somente e leva ora chumbo ora ferro ora pluma ora leve ora rijo ora belo ígnea a fala a escrita ígneo o poema que ainda assim, se desatento, escorrega e foge despenca e em queda livre cai... dura tanto quanto pesa ou flutua recusa tormentas revida contendas levando ao desuso e desanima desiste definha,  não vê (?)... -

vê e fica e quando vai fica vela e turva suprime e labirinta e enviés enubla sem pátria sem prato sem teto sem nota moeda qualquer que seja ou verba ao verbo e estanca sem uso e por fim forçada, na marra, aquieta-se silente são ou doidecido dorido cala e esquecido - contentamento súbito - surge incólume e dorme dormita descansa inquieto e sedado ... em pausa ( ... ) .

 

face 4 - Matura. luz lamparinada... e verde-grila verdegrila tua câmara de horrores debela mesmo ao outro o mesmo que dá mesmo que em forra fora do tempo no tempo mesmo...

e o grilo... ah o grilo - sim o grilo - os grilos que antecedem a entrega e entrego - oferto ao poema que o poema - e o grilo  - sim os grilos... - grila-grilam – cricrila - estrilam ... 

Ouça... ouçam... Ouve (?)... Estão ouvindo? (...)

Tudo tão vago tão raso tão rente e o profundo e o mais aparente rente a mente a do poeta que quando entregue ao poema cai em si e em sina - a de furtá-lo do velado mente, mente o poema, mente e engana ao revelar “se” em que no desvelar... se subtrai e então - que fazer ? - sê-menos e a isso sê-mais e no ínterim do que temos(?) e teimar nisto - não ter-memo - não obter ter - ter menos em ser-mais. sê-menos e assim... no mais... Silenciar... quedar-se quieto.

 

face 5 - Dorme - dorme agora dorme - dorme criança - dorme toda gente - é melhor - pois tudo o que corta arde dá talho e dói e no esquecimento só após muito frigir depois de muito burburinho é que o intento rompe o casulo um tanto mais por um tanto menos é que por toda a carne e por quase nada que a carapaça frita pelas duplicidades e especulações fingindo frigindo cozendo é que finalmente se entrega pronta e silenciosa... ié no silencio que aturdido e pasmo pode voluntariar-se a humanar e aquecer o poema - que aquietado - põe-se posto... pronto... está posto sirva-se pode degustar fique à vontade - ié por um pouco só um pouco - um pouquinho que seja de paz...

e o poema navisfera toma rumo e a seu meio horizonta ajeita rotas parenta linha reta mas é curva geodésica se adequa nessa reta mas apenas em pequenos horizontes e mesmo em déficit de expressão mesmo num expressar difícil tão difícil que tropeça deitando velamentos ainda maiores em desvelar e boiando em vagas desajeitadas tentativas em humanar de fração em fração imensa o dito humano .

e o poema prisioneiro nos limites daquele que capta ainda assim decide colocar frente a frente em si - na verdade poema - quando poema – coloca o mesmo a um outro e outro e poema - na verdade mesmo é que - pouco im-porta pouco importa o poema – que se dane se o poema se porta ou não ex-porta e se não tem gente dentro - a se valer - se o poema - quando poema – quando chega a gente - se-se achega e feito um amigo ou mesmo um inimigo ao lê-lo na sua mira ensina abisma e nos põe age - navisfera a gente - mexe sacode bagunça e remexe o que vai na gente.

- ao ler o que vem dele e o que vai nele o que tem e se atem e ao que fica no que toca do que lembre e relembre nos dê-volva os fins mesmo que por volteios e nas voltas e mais voltas afins em-volva e com-chegue até lá nos confins da gente dos que encolhem nos que acolhem a gente mesmo que em recuo na recusa recolha o quê que nos devolve algo que alise que roce ou coce ou morda que arda e que alegre e ria com a gente com o quê que em muitos finaliza e mortifica e a outros vivifica e desdobra existências e - em-caminhe pise repise pense sinta repense res-sinta ame e emane e aos poucos - passo a passo - quem sabe o poema chegue venha até nós e nos poeme - e de vida-em-vida assim nos melhore.



Transmirando o Poema

 - deixar rugir o caos atônito -

- o eco do poema desloca perfis -

- o poema é uma pedra no abismo -

- um poema como um gole d’água bebido no escuro -

 
- fragmentos de Mario Quintana 

 


O Fogo Dança 

O fogo dança - chispas - fagulhas luminosas ascendem dando asas aos remos e alçando vôo - e essa idéia insistente em criar semências - sementes crepitando pairando embaladas pelo ar e mãos aos remos... rema e rema - por horas a fio - navega feito um barco aéreo singrando e-venta quase etérea com um broto verde na ponta. 

A inconstância do humor dos ventos - ventania - ventarola de romper o vigor do viço, e a grande farra, uma farra de quebrar os galhos, de vergar, arqueando as forquilhas dos ramos, florescências que crescem e crescem e por entre os raios as ramagens de um sol vigoroso, um daqueles que parece que a gente pode até pegar com as mãos – um céu entrelaçado penetra enroscado no espaço escasso de uma promessa feita secretamente a ela, promessa de pousar em chão fértil e no esforço de não despencar, não cair neste frágil e fino véu, véu marinho, véu marinho negro-azulado, estreito manto - e pousar num lugar longe das espessas névoas, bem pra lá dos confins desta noite - onde nuvens não venham ocultar ou turvar o frágil espelho prateado desse raso lago. 

Espelhadas lâminas transparecem claros e escuros por sobre a cata e venta, ondulam largos gomos largas rugosidades esculpidas sobre o espelho das águas na brisa do vidro translúcido do olhar que encharcados, mareja no zigue-zague das ondas colhendo fases dos viços na tela do rosto, lugar (?) forja dos sentidos, degustes que dêem sentido às coisas as curvaturas veladas das superfícies a se desocultar e a vir tocar o súbito, o trágico ver-vir dos interstícios, aqueles, os tenebrosos, mesmo que seja só de um fogo-fátuo de uma precária dança - 

- por lenha na fogueira, encrespar toda ela e num cadinho de tempo, o caos, espaço informe que adentre e submirja e traga à tona, pouco a pouco, quase tudo que há e pode dar o embalo às vértebras fogosas da naja da língua dos ares e circum-baile - dance-dance aos rodopios nas chamas desta ciranda do fogo.  

O fogo dança - dança incólume - alumiando quase todo o caminho como a tocha de um poema se rende ao encontro, e dos contrários brota dos possíveis, busca entre os achados e perdidos os ilusos que nos dão rumos - e são tantos - tantos são os rumos - tantos os caminhos e nada sabemos de certo - nada - nada de como ir nem pra onde ir ou por onde começar - quando fora daqui. E ensaiamos.

- ensaios e mais ensaios - ao arquear as asas, redundando e ocultando sorrateiramente como sair - ir saindo de fininho deste lugar permeado de misérias  e são tantas as misérias - tantas - cheio em traçar planos e rotas de vôos, troçar das decolagens alheias - ora altas ora rasas, das aterragens.

Já perto em ‘debicar’ - nossa pipa - alçada a grandes altitudes e feito um mosquitinhos ao longe nos dê a guia aos tantos e tanto possa vir e dar um abrigo sincero, um hangar ao fôlego e nos dê liga à linha - sem cera - e valha algo.