08/10/11

O poema, o Poema ( ? ) -

Quintanares  - Trans´Mirando Mario
                                                                             
   - um poema como um gole d´água bebido no escuro. 
- o eco do poema desloca perfis. 
frags. de Mario Quintana - o poema o poema


o poema o poema (?)


a casa 

a casa do poema 
a morada 
a morada do poema 

o poema, o poema...

o poema o poema.

a água a água do poema 
a busca o susto o vasar 
o vaso o vago o quantum 
o quando o como o onde 
o capto a cata o solo. 

que solo?

o poema o quanto o quando 
o tempo em tempo, 
e só no tempo o poema  
e então, enquanto nele  
pisa e repisa, assola
passa em terra terra-terra 
e aterra o indício 
o inicio do poema
a semente o plantio 
a planta o cuido 
a flora a forra do poema.

diz-diz-se: luminoso instante. 

Luminoso? - 

A rega o bulbo
o bobo do poema 
que apega se pega 
pega-pega do poema

se gosta o gosto 
a pegada do poema 
a galga a vaga 
o vasto que o poema.

a flor, tão breve tão breve, 
o pólen o vindo 
o espalho do poema 
o fruto, que fruto? 
- fruitivo, degusta-se
ao sabor daquilo que não é,
tal nisso, nisto, e por isso, 
a saber - "o sabor do inútil".  

O colher o peço o expresso 
a mera o modo ígneo 
ou em mero e errante 
a pura incapacidade 
em conter, frear a língua 
que por muito com-dício-nada
que é, pousa em modos de sedução, 

luxuriooooosa...

vaidosa lindamente vazia 
e os vôos, tantos os voos
os sem rumo sem ar
com ares de requinte
e ainda assim, ainda assim 
voa e canta expressa e sofre 
e sofre os paraísos ou mesmo
purga em reino de tolo 
e timbra e turva o tom 
o som a rima, rima-rima
dês-rima lima arruma 
derruba rebela e trisca e ilha 
que mares sidera e narra,
faminto, descaminha, 
confundindo ainda mais 
o canto e ao canto 
num cantinho qualquer 
que seja, passa, passarão 
passou... e passarinha a carne
o cerne cor-pó-reidade 
que te encerra, es-fera 
em garras te encaram, 
contaminado, e cai, 
seduzido ao que não é, 
e queda

experimentar o já experimentado, 
espremendo-se ansioso e inquieto
ao mastigar o já mastigado 
apropriar-se indevidamente 
ao que não nos pertence
nem nunca pertenceu 
ou pertencerá e então 
o atrito o conflito o rugir o grito
o barulho o inútil o engano... 
e o grilo das noites... 

ah o grilo. 

Ouça... (?)

vem grita grita e grila 
grila, grila-grila, cricrila, 
rompe o grilhão que limita
e nina faz naninha a ave 
o galho e arvora o poema 
dorme dorme-dorme
o pássaro, em que quando, 
engaiolado poema e o poema 
o poema mesmo assim voa 
ou mesmo o quer voar, e avoa 
voa escapa daqui escapa e livra
o lugar dele e passa... e eles... 
bem... eles passarão... 

passa-passa... passou...

(?) dado ao ímpeto 
que o aprisiona e mora 
e fixa-se em tremendo burburinho,
pois então que passe, 
já que vive, passarinha 
mesmo que por breve, 
já que fora, par-além 
par-aquém o prende 
ou asa e a asa asa ou fere 
ou põe-se ferida à ofertada
liberação oportuna desta cela 
ferrosa forma fundida e pó 
e no pós gélida fria grade
conduzida a planos 
de esquecimento 
e desfrutes dos sentidos 
sentidos estes, incompletos, 
falhos e o poema exaspera 
o poema desespera e o vazio 
o vazio que por um tris 
num curso do que trisca 
o que por um tris 
o não do poema ao poema 
que cai, cai e vai indo assim 
mesmo, enchendo nossas
cabeças e corações de inutilidades,
blablarizando-nos em mais e mais 

breves instantes, e, “um gole d´água 
bebido no escuro". Que bebe? 
Que sorve? Palavras, palavra e lavras 
ditas mágicas, loa de vida e morte
e mais... mortes e o cativeiro 
que nos encerra... e o poema...
bem, ... o poema é o poema, 
o poema é que bebe que come 
e o que o come que o sorve, 
criativamente absorvendo, 
e de empréstimo, só aparentemente 
parece gerar sóis, luas, mundos... 
uni-versos e o sol o sol-vê no escuro,
asséptico, profilático, e no escuso
só de breve e ao longe pressente, 
presenta a saída a porta e aporta 
aos poucos, gradualmente esvai-se 
no tanto nos poucos do poema 
sem nele jamais estar. e então... 
em miséria ou rico o canto conchega 
vem residir e a casa do poema 
põe-se aberta, pardalinha.

a sina o sino mudo anuncia o fim 
de tanto-tanta especulação 
e o remo os remos os do poema, 
nos deixa ao abandono e dentre, 
adentro, o barco o dentro do barco... 

e o poema... 

o poema finalmente aporta... 

enreda, te enreda e enredado...
te abarca. 

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