


Onírica
Humana - e-male-male - se presenta a esse homínimo. E agora deu de xeretar planos, plano a plano - um a um, um por um, camada por camada - uma a uma - a chafurdar vias - várias - buscando uma saída, uma vazão possível - um escape - desta apnéia sem fim - suponho que etérica. Tomara.
Então conto.
Mas como contar? Que usar para contar onde o dentro, o fora, onde ocorre, dentro de onde?
Do lado de fora de lá de dentro onde tudo se dá e se desenrola aparente o ad-continuum, e dentro, lá de dentro, manifesta-se e vai se configurando por partes – parte por parte, em blocos, bloquinhos truncados que se concatenam.
Então tento. Vou contar. Quero contar. Nem sei se posso mesmo contar; e por outro, mesmo assim, assim mesmo conto.
Sei que de início o contato possível era estranho, mas durante e finalmente é leve, bem leve. Por quase todo esse quadro, nessa cena - cá e lá tem seu peso, no que possa e venha incorporar, no âmbito do incorpóreo - levo - sim, levo e assim levo e conto e narro.
Vou contar
- e a grande custo.
Humanado - submirjo... E aos poucos - pouco-a-pouco - ele embarca e das mãos e por sobre as mãos, rema e rema devagar, bem devagar - mecanicamente - põe-se distraído sem dar muita atenção lá às remadas e remadas que dá; e quase nada de corpóreo havia nisto, sim, não se apresentava ao aqui e agora, nem sequer permanecia muito tempo neste que parecia repouso.
Havia algo. Algo no olhar - e de olhar, que só aparentava algum centro, sei que ensetava todo entorno e no largo um lago, num enorme lago embarca - e - pé a pé - alaga o barco e naufraga no charco alagado que há dentro do barco e em lentas passadas e passado o assim, assim se faz e caminha, navega diria.
Mergulha em águas - águas muito estranha - água barrenta, quase toda - coberta por uma rala película - um lodo sedoso; e vários chumaços de igarapés - esparsos, verdes e também terrosos em suas folhas carnudas, nem sei - talvez seja um rio, ou talvez seja um lago, talvez represamento - enorme - nem sei nada - não me lembro - não se vê as margens d’outro lado - e supostamente abarcado, ao remar, delimita toda paisagem, que ora adentra, ora põe fora.
Afora e à margem, esse lado de fora demonstra do estreito, que sufoca, mas passa e se adentra e se imensa. Mas do imediato o mesmo, que se adentra, não se apresenta, nem nada cógnito presenta.
Não se trata de dizer algo do nada - que nada (?) - mas parece ser.
E em estar - demonstro.
Na barca, a dos pés - perfila e desliza, por cenários - que sei que é bem mais onírica que na real do caminho.
Compõe - cena a cena - uma superfície - permeada e variada, uma gama de cores - cores verdes e terrosas - que vibram e pulsam aqui, ali e no acolá, pincelam tons, uns tons - de marrom e breves tons de bege que cintilam, mas quase escapam à seta d’olhar.
Algo - se - mantinha oculto, mas não totalmente escondido, camuflado e de soslaio escapava de um olho, de um olhar que captado, captura e escraviza a entidade viva - claro - pois advinda de mergulhos, um longo e recorrente percurso - e sim ... - onírico sim.
Cênica: - provinda de certo estorvo, por vezes lúdica, divertida, no revés, vez ou outra de viés se dava ao tempo e num espaço de tempo, o tempo imergia - sensação estranha.
Que tempo seria este? Esquisito - Tento contar. -
Os detalhes, os Intentos. É difícil... Muito difícil é lembrar-se-lembrar
- agora - contar mesmo?! - Hum... Talvez, sei não... Quem sabe - Ao que consigo.
Quando os caminhos bifurcam a escolha só parenta ser plano, mas não é, pois só a visão que restrita e horizonta e achata a orbe. Moldar, tomar direita, dita destra, que nada endireita ou esquerda, dita sinistra, ambas - suportam divisões que enfadam a existência em estritas e estreitas dualidades.
Sinistros ou (a)destrados comprimem e oprimem as entidades vivas, achatando as ricas nuances de convivência e a conveniência civilizatória frente à presença histórica. Por fora bela viola, o dentro pão bolorento...
ahhh ...
É esférico ou deveria ser, e o propósito, o intento, alcançar e expor, impor o ser, e ser, entrear quando do silencio a fala perfaz pro lado de fora enquanto ainda dentro Para mostrar o que se dá a ver, onde o mesmo e o outro venham a consumar seu encontro, fica à mercê de milícias abomináveis e tacanhas; que manipulam e dobram, deitam e aprisionam os possíveis da existência.
Porque cerceiam e reduzem as riquezas do existir ao interesse destes poucos?
Porque promovem deliberadamente estas desigualdades e desequilíbrios medonhos?
Maniqueísmos, produção deturpadas e reducionistas de monstros famigerados, famintos pelo desfrute das riquezas do poder temporal.
Tocar, perceber, se ater ao que vem e o que se dá a ver, demonstrar que o quê se dá a ver e ao que vem, vinha-vindo, a ‘entrear’ ao que era ié... e vem... vem-vindo - que venha então.
A impressão que causa de o vir, do que pode vir e vinha, vinha consumar, somar do que vinha-vindo, do que fazia sumir aos poucos, mesclava ligando e produzindo ramos ao mergulho, pra onde ir?
Mesmo que no possível e dos possíveis configurar o sumo do recordo - e neste recordar instaurar e trazer ao imediato, ao plano físico - a physis, materializando, pro-duzindo alguma coisa que palpável que adentre mesmo antes de chegar.
Conto: Subia e descia - assim - e sobe e desce. - Subia e descia por entre ruelas, trilho por estreitos, por passagens em Y. Sei quê do que via é que de antes já me havia, e houve assim - algo bem mais como deixar ir - ir-indo.
À porta - é dito - dizem - digo - Talvez portais!?
Pode-se muito bem dizer que rompa com tais padrões, os do tempo, do espaço, dos 'bi e dos 'tri - para fora de ditas armaduras e molduras venha dar uma melhor dimensão do quadro todo.
Ao que parece tudo se deu em interstícios, filigranas entre vigília e sono, lugar, lugares que passeiam os sonhos - dizem...
Câmara de pura e intensa criação.
O ‘abstrato’ pouco seduz, na verdade não é muito bem vindo ultimamente; ele confunde - não se sabe mais dar boa lida a isso; as coisas, as não-coisas, as que provem subjetivam, o abstrato se perdem por entre os dedos; já que não se presta a ser tocado com a carne das mãos, com entre olhares, a apnéia de mergulhos de coragem e ousadia - acho que nem sei.
Dá um medo danado, pura paura; quiçá, claustrofóbicos tornam os mergulhos, entalado no estreito da entrada de acesso pr’outro lado, e devido a insistência de tentar passar, e do susto que causa, acorda, fica no trauma, na supressão do informe. Mas ainda tento - acho - e por isso traio, abstraio; na tentativa em traduzir, tento em contar, atento e conto, com medo e tudo, mas cansa, sim, cansa, mortifica, por isto contraio, subtraio a narrativa, distraio e finjo estar por aqui ainda.
Não se trata de mero desarranjo planejado, nem de tempo, nem de espaço, muito menos em tecer os pedaços de onde se determine algo dos possíveis, de um lugar para que ainda se possa existir.
De além, de muito além, par’além que brote e de ti ‘em-sai-te’ e movimente, que dê sentido, viceje e encante, e no soslaio lance a seta do olhar, seja entre aberto ou fechado, chegue e veja; e no son(h)o, o que condiz, conduza ao imaginário suas sonâncias e dissonâncias e finalmente acorde.
O que preponderava mesmo, era que do etérico precedia, se achegava antes mesmo de chegar, pré-vinha, acenava, acontecia antes de advir, e se mostrava - no após - antes de transpor e revelar o que do por vir se antecedia de um tempo - outro - neste mesmo; tempo esse que já não havia, não pertencia mais ao passar tic-taqueado do pulsar de um relógio.
D’então o quê estava a vir?
Por um miúdo buraco, passagem estreita, mas possível, justo, dava pra passar e passei, a custo.
Mirando, minando a pedra, cavando num lance de olhos, o intento do olhar, o transpassar, dava acesso pr’outro lado, onde se ocultava uma imensa mata verde morro abaixo.
Vilarejo simples, ladeada na periferia de uma baixa floresta, vila rodeada por uma imensa massa verde, envolto em musgo, os troncos e as copa, pareciam brócolis.
O começo dos caminhos, em meio à vida, cena a cena, acena - todas elas - e aos claros - escuros – e de início, escusa - e aos poucos - pouco a pouco brotam os agoras, os jás - as prés e os pós destas vias que do olhar emergem.
Atento aos passos, os pés davam à construção do caminho, o caminhar a partir do alto da estrada terrosa, encaminha-se precedendo o mote em chão batido e rebatido, vezes e vezes, a superfície, artificialmente arenosa e cortada em vias que enforquilhavam de cima para baixo, em declive.
Os passos tinham que ser brandos, cuidadosos, já que tudo iniciava da parte alta da via, cheia de pedrisco, isso pede arquear, flexionar as pernas, andar atento, bem antenado - via onírica - então ligado, descendia... Ia, ia...
O destino? - ao final dessa ladeira, que em descendência, beirava a um barranco cavado.
No extremo, a casa, uma destas toda avarandada, simples, antiga, do tipo bangalô - cri nisso - estava inabitada e alicerçada a muito por sobre uma pedra, uma bruta pedra, enorme essa pedra - encravada num morro.
Saiba, e de antemão nunca me havia e embora soubesse, de alguma forma, que antes já a muito havia.
Detalhe...
Uma cerca em ripa de madeira de ponta a ponta cercando um terreno em seta.
Aparentada aquelas às das de infância, lembrava a ‘chegada’, nela um portão, fixado em caibro de peroba; e mirava - convidando a entrar - o telhado triangulava o céu.
De cima abaixo e à frente, após uma trilha de tijolos, uma fachada e em seu entorno uma varanda, abraçada por mureta assentada com lajotas de cerâmica, abaulada nas bordas, enceradas com cera em pasta vermelha e já ressecada, craquelada pelo tempo.
Na área, avarandava pilastras falseando colunas em estilo dórico, que muito bem serviam de assento e recosto a devaneios juvenis.
Bem... de dentro, brotavam demarcações, tanto do avarandado agora, como todo o estranho e belo e fungado habitat.
À porta, a de entrada, com janelinha à altura da vista, com borda de madeira, servia de moldura ao vidro, trincado; dentro um trinco, pequenino assim como os olhos e o olhar que os via.
Já dentro a casa internava uma ampla sala de estar, vazia agora, empoeirada, uma poeira já viscosa, moveis bem antigos, tanto quanto a casa, num canto um piano, um velho piano, com teclas revestidas em madrepérola amarelecidas e já carcomidas pelo tempo, que desgastado, ficava nesse abandono; noutro canto um sofá, bordô, de napa rota, carcomida, e ao centro uma mesinha, de falso mármore, *(não sincero). *com cera.
Dizer démodé seria redundância, mas digo; e por contra censo, já que o que se via encontra-se do lado de fora desse tempo ou d’outro e desdobrado e sôfrego o que aqui, descrevo - tento.
Havia outros e talvez seja muito confortável ficar no cômodo e no neutro por assim dessa narrativa.
Apenas um deles ficava em maior evidência; por trata-se de um modesto quarto, que apresentava sérios indícios em se tratar de dependência, quase uma despensa, destinada a serviçais, empregados, que por hábitos de castas, horrivelmente seculares, neste lugar que habitamos, perpetuam-se em tratar as pessoas em conveniente desigualdade.
Pr'essa (miúda) fresta, nada mais que um buraquinho par'além da parede, um vão na pedra que de baixo pra cima, e de forma encantatória, mágica, invadia e que (agora) fende e me habita - (aqui) - no interior desta casa.
Pr'esta que se sujeite e deite ao verbo todo sujeito que ao externo se coloque e fique todo cheiinho de si e a mercê dos percursos, os percalços, a desatar os extremos, cena a cena, desabando.
Passeemos... Passaremos por esses eventos, caso ainda acenda, caso queime, acaso ainda ascenda.
Vai, vai indo, de senda em senda, dá um rumo que d'efeito em efeito dêem causa em causa, pause afincos, trilhe espantos e a tantos e outros, e por'aqueles que nos ele, acione os éolos, iniciem ventarolas eriçando os pelos, abrindo os poros, e de poros abertos preste a alçar vôo, passem por'essas noss'estradas.
- e assim abra, abra as asas - abr'asas, abra lá, abra cá
- abra cá d'abra - abra... e que ainda mova
Passeemos cheiinhos de si, acaso queime, acaso ascenda, seja aos éolos, dado às asas, que eriçam os pelos, os poros abertos aos ares, ares que tornados, tornem noss’estrada. abre as asas - abra - abra cá d’abra...
Abra.
Fresta – (variação)... ladeira abaixo, viela simples, periférica, terra batida, socada, estrada arenosa, forquilhada, permeada, cheia de pedrisco - via onírica...
Descia o destino ao final da ladeira, a beira de um barranco, uma casa, construída, a muito, acima de uma pedra bruta, agora, nunca a havia visto, embora saiba, de alguma forma, que de antes, quase com certeza que a conhecia,
pr'essa (miúda) fresta, nada mais que um buraquinho par'além da parede, um vão que agora - ) fende ( - e me habita (aqui) nesta casa, pr'esta que venha, sujeite e deite-se ao verbo, todo sujeito que no externo fique todo assim, cheiinho de si e a mercê dos percursos e percalços desarrola a desatar seus extremos, erguendo-se ou desabando.
passeemos... passaremos por esses eventos, caso ainda acenda, caso queime, acaso inda ascenda, vai, vai indo, de senda em senda, dá um rumo que d'efeito de causa em causa, cause afincos trilhe a tantos, e por outros, por'aqueles, nos elos, éolos, ventarolas eriçando os pelos, abrindo os poros, e de poros abertos preste a alçar vôo por'essas noss'estradas.
e abra, abra as asas - abr'asas - abra cá, abra lá, abra'cá'd'abra - abra... ainda que mova - passeemos cheiinhos de si, e se acaso queime, ascenda, ainda seja, dado às asas, eriçando pelos, os poros, poros abertos, abertos aos ares que sempre entornamos por essas noss’estrada.
- abre, abra as asas - abra - abra cá d’abra... - abra.

