29/11/18

Burnt Norton - T. S. Eliot

Burnt Norton

Embora a razão seja comum a todos 
cada um procede como se tivesse 
um pensamento próprio.
T. S. Eliot - Quatro Quartetos, Burnt Norton I

O tempo passado e o tempo presente
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo tempo é eternamente presente
Todo tempo é irremediável.
O que poderia ter sido é uma abstração
Que permanece, perpétua possibilidade,
Num mundo apenas de especulação.
O que poderia ter sido e o que foi
Convergem para um só fim, que é sempre presente.
Ecoam passos na memória
Sob as galerias que não percorremos
Em direção à porta que jamais abrimos
 Para o roseiral. Assim ecoam minhas palavras
Em tua lembrança.
Mas pra quê
Perturbar a poeira numa taça de folhas de rosa
Não sei.
                              Outros ecos
No jardim se aninham. Seguiremos?
Depressa, disse o pássaro, procura-os, procura-os
Ali no canto. Pela primeira porta,
Aberta ao nosso mundo primeiro, aceitaremos
A trapaça do torno? Em nosso mundo primeiro.
Lá estavam eles, dignificados e invisíveis,
Movendo-se imponderáveis sobre as folhas mortas,
No calor do outono, através do ar vibrante,
E o pássaro cantou, em resposta
A inescutada música imersa na folhagem.
E um raio-olhar impressentido o espaço trespassou,
                                                 [porque as rosas
Flores contempladas recordavam.
Lá estavam eles, como nossos hospedes, acolhidos e
              [acolhedores.
Assim, caminhamos lado a lado, com solene postura,
Ao longo da deserta alameda, rumo à cerca de buxos
Para sondar o tanque dessangrado.
Seco o tanque, concreto seco, calcinados bordos,
E o tanque inundado pela água da luz solar,
E os lótus se erguiam, docemente, docemente,
À superfície flamejou no coração da luz,
E eles atrás de nós, no tanque refletidos.
Passou então uma nuvem, e o tanque se apagou.
Vai, disse o pássaro, porque as folhas estão cheias de
                                                           [crianças,
Maliciosamente escondidas, a reprimir o riso.
Vai, vai , vai, disse o pássaro: o gênero humano
Não pode suportar tanta realidade.
O tempo passado e o tempo futuro,
O que poderia ter sido e o que foi,
Convergem para um só fim, que é sempre presente.

Tradução de: Ivan Junqueira - Editora: Civilização Brasileira S. A.

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