fiação - entre-tecer
Urdir ... alinhavar e dispor os
fios aos meios - camada após camada
linha a linha por entre as
teias tecidas e transversas aos sentidos.
todos eles.
e todo esse drama
toda essa
trama
continuamente adaptada
encenada - conforme os passos e aos
encontros
cena a cena que figura-da-mente se
atrelam
e mentem
mentem - sinceramente
entre si.
ié natural que mintam
e redundem pelos
enredos
e se com-formem.
pode ser que assim ambos se entre-tenham
e convirjam entre-laçando assuntos e temas
dando liga aos elos.
entre elas e eles.
é que ... já vinha-vindo a algum tempo.
§ § §
entre-ter ... enredando
entre-tecendo
fio a fio.
e fiar ... fiar
e fiar.
fiar ... a tudo fiar.
alinhavar
dar liga aos elos
e cerzir tramas e atos
caseando e buscando um
lugar pra habitar
por entre cenas e atos.
um lugar pra gente ficar.
isso fisga a
gente - finca
se ancora e pega
na gente que só.
talvez por hábito.
parece
alocar.
d’assim ...
(a)dar um jeito neste
amontoado
nesse bobolô todo.
a dar um destino a essas
tantas e tantos
e cadinho a cadinho dar um fim a tudo isso
que vai se entre-laçando na gente e nos partindo
em
pedacinhos miúdos lançar isto tudo
pr’outras bandas
longe daqui
pr'outro lugar.
assim ... e por vezes
nest’afasia - dar cabo a tudo que brota
a
tudo que surge e segue aquilo que acena
que
cativa e que fica incrustado na gente.
e a tudo mais que entorna e que se enlaça na
gente
e que envolto venha sem arrodeio mesmo
que force
e faça com que a gente ali fique e se fixe.
frita no pouso e queda ex-tática.
por lembrar de algo visto pela primeira vez.
isto mexe e remexe numa porção de coisas na gente.
e não ser ceia
nem papinha de matéria.
nem ave desvairada que desatinada e eletrizada
pouse dando sopa ao desatino.
ela me disse: - vê se tome tento.
tento - não consigo.
quié qu'ela quer com isso?
quié que ela tanto quer ou pode me dar com isto?
quié que ela quer que tanto me mobiliza?
um pouco de alento talvez.
mas sem certeza alguma de nada.
todas essas coisas - toda(s) elas
acabam ficando um tanto
todas - reviradas
numa bagunça danada.
assim - pouco a pouco
acabei ficando
muito pegado ao que há nela
por demais apegado n’ela.
há algo n’ela
de uma doce selvageria
algo que sibila
que sussurra
e cantarola baixinho
ao pé do ouvido
em bocca
chiusa.
ela me deu
o barco
ela me deu os remos
e um rumo a seguir
ela me deu.
ela me deu
os passatempos
e todo tipo de entretenimento.
ela me deu o cultual
e a
cultura desse cultivo.
ela me deu
o humor pro sacro
que ‘em verdade em verdade' vos digo
durou bem pouco.
(é... pois é...
é um saco isto tudo né.
uma aporrinhação danada tudo isso).
e tudo isto ela fazia só por querer
só por que queria fazer.
ié só por isso que ela fazia o que fazia.
e ao fazer o que fazia ela também sempre me dava o que fazer.
ié só porque ela podia fazer é qu’ela fazia.
então ela me deu
a cura.
ela me deu
na verdade
me devolveu o sabor
e os meios pra saber
partir e chegar
e a me entre-ter com tudo isto.
então ela me disse: - agora teça ...
teça: - então...
tecia e me entretia com isto.
aí ela me deu
todas essas
distrações - todas
todas elas ela
me deu.
ela me deu também
a vela e também me deu as provisões
e a cansativa ciência e a arte de
navegar
e de remar por'entre os interstícios e os velamentos.
e ela me dizia: - vai menino rema ... rema caramba...
e eu remava e remava
esquerda-direita
direita-esquerda
agora para ... respira ...
descansa um pouco - vai.
aí ...
ela me deu uma sinistra
destreza
em içar e alçar
velas e panos
planos e rotas.
então - ela me deu o ritmo
o pulso
o alento
e os obstáculos
um a um.
o que veio (a)dar - bem depois
um pouco mais de sentido ao que de antes
a tudo aquilo que a muito vinha-vindo me rendando
e que ressoava e zunia forte ao pé do ouvido.
e o mais estranho
é que ela fica por perto
me circundando
me circulando o tempo todo.
e de tempos - em tempo - dentro e fora
ela sorrí e me instrui -
dizendo: inspira-expira
inspira-expira.
respira - isso - respira
vai ... singra por estas águas em navêgo contínuo.
e assim (é) e tem sido.
vira-e-mexe ela se achega
dá um sopro e se (a)presenta
fazendo uma zoeira danada
e me faz lembrar de
como é divertido
ficar à toa brincando fazendo zunidos
entre os dentes com a boca chiando feito vento
e na zoada toda tempestiva
produz ventarolas e
tira tudo do lugar.
e vez ou outra ela se embola
e bagunça tudo e
me mostra
o caos que são as coisas
antes mesmo
que haja algum
mundo
aí ...
ela relampeja e trovoa ...
feliz e tempestiva da vida.
... ↯ ↯ ↯ ...
e quando tudo se acalma
acena e lança dardos
e me cativa com sorrisinhos piscadelas
e fusquinhas balançando e tremelicando os dedos
e a tudo abarca pela fina fresta entre sono e sonho e me abraça.
- me desdobrando -
e neste ir e vir
e
por vir
por aqui
vou...
vou-indo...
vou-indo... vou-indo...
mas veja:
umbralino que era
submerso e já - quase - sem fôlego
sem um lugar sequer para
estar
sem nenhum
confronto ou conforto
nada se movia ou
co-movia - nem lá - nem cá.
e agora - justamente agora - súbito
ela vem e me ata neste enlevo
vem - toda-toda - toda arqueada
e
me darda assim dum jeito que só.
e depois de tanto tempo escondida - só insinuando
vez
ou outra algum sinal de presença ... e agora chega
assim de
repente - e se revela - e se mostra toda sedutora
despida
se roçando e se dando sem nenhum entrave ou pudor
em
todo seu contorno com seus relevos e sinuosidades
se descobrindo - revelando curvas e passos dados pelo
caminho.
e só agora - só agora se revela.
e dados e mais dardos
setas e codificações
arquitetura mesmo
tempo nova mesmo antiga.
e esses caminhos trilhados
e esses malditos ora benditos
captos
que agora chegam através de intrincados velamentos
não mais tão tenebrosos assim - nem por
entrelaçamentos
nem por entre interstícios que
se entre-em-laçam
entornam vigor e tonificam as asas aos
voos.
é que pra
voar nem sempre precisamos de asas
voar não
é só coisa pra pássaros ou aviões.
pássaro não é só asa ou voo.
é caça ou caçador...
ah... dá um tempo ...
a tempos que o tempo voltou a caminhar
e caminha em largas passadas pelo contínuo de um tempo que
passa.
e entre tantos e tantas camadas
camadas e mais camadas que brotam.
películas e cadências ínfimas
modos etéricos que
assuntam
que assustam e tamborilam o peito de verde
bem no centro colorindo a fronte entre
os olhos
em tons lilases - roxos - claros e escuros.
por
vezes meio-tom - alvos tons
tons de vermelho
de laranja
de amarelo
meio bege
meio pele
meio pálido.
parca e pouca.
aporta e se ancora.
num tempo sem lembrança.
e essa rama
essa rama verde.
verdinha-verdinha
que carrego
pra lá e pra cá
e
que pulsa...
pulsa ... pulsa ...
projeta desenha margeia
alinha ponto a ponto
e
me circunda em nav'ego do início ao fim.
ah ... essa menina
essa menina
que de olhos e olhar
que de tão grande
nada mais
já me ocultava.
e ela - de esguelha
toda cheia de trejeitos
capturado reclina refém do que via.
sob o peso trans - verso de uma corda imensa
que s'estendia sobre o campo de
uma ponta
a outra transpassando todo
horizonte.
lugar incógnito.
um mar aberto - verde-azulado
e todo o peso entre-cortado por uma rasa fresta que se abria
e toda mesclada de um bege palha que pendia.
e
àquela que agora
pesa um
tanto e me dá cabo.
d’assim ...
é preciso dar um jeito a toda essa mesmice
que desse rosto agora pousa trans-figurado.
e que pelo visto e revisto que pululava em vislumbres pela pupila
sujeitando todo o tecido da imagem e quase enfermo de deslumbre
e aprisionado
pela visão que todo aquele quadro de coisas produzia.
debruçado sob a imagem e preso em dar algum foco e retê-la
revê-la reflexa na concha das mãos circundando toda aquela cena
quase onírica - que é e não é ... mas quase ...
mas tudo é só um resquício de lembrança.
e que feito uma flecha um dado um dardo de um arco quebrado.
e que d’aqui parte sem mira alguma e parte e se lança em assombro.
e fisgado -
sei lá de onde e pra onde - queda ao chão e tomba em fascínio.
foi só então que vi e ouvi que tudo
tudo
mesmo já havia sido.
e giros pela (in)constância dessas venturas e desventuras dos encontros
e desencontros que a todo instante chegam e tingem as águas.
e quiçá ... quando propício as cenas e o
imaginário se tornam um lugar
e o lugar descortina
as janelas dos olhos e lança sua mirada
para que não haja
mais nenhum vestígio que embace a mira.
e que ao arco do olhar nenhuma nuvem
mais enuble nem sombra
mais cubra ou turve - sob um radiante sol
de meio-dia saber do ritmo
do pulso das ondulações do tempo das
lunações das mares.
do corte transverso das ondas
das manhas e das correntezas oceânicas
e do vigor do fluxo e do humor das águas.
do transcorrer das coisas
das correntezas dos dias
e das noites e noites em claro
das
marolas marinhas e das ondinas
obter os segredos oceânicos.
( - à - ) - Des - Vem - Dar ... Se ...
e quiçá ... debaixo do exato instante
d'onde não possa mais haver
e não haja nenhum vestígio sequer que
obsedie o dia
e
que possa ainda existir algum alento que adentre
onde possa ainda haver alguma sombra e sob
a relva
ao
pé de um arbusto ou debaixo de uma bela macieira
e
em repouso sob um radiante sol do meio-dia observar
a
gravidade na fina curva da queda das maças.
a Des-Vem-Dar-Se …
e do que vem e ainda pode vir.
mesmo que brevemente se mostre.
e
do que ainda aqui surja e desponte
e
venha e se achegue que por aqui e se presente.
mesmo
que logo
e
de novo
se
oculte
e
escape.
sorrateiramente.
todo tempo.
o tempo todo.
O
mistério habita em cada gota pela memória
em
cada onda que arrebenta e espuma pela orla
bem
no fundo na profundeza e no sal das histórias.
As
águas refletem mais que claridade ou sombras
elas
espelham e se espraiam dando sabor a sonhos remotos
ocultos
nas conchas e no murmúrio do vento.
ou em antigas caixinhas de bugigangas.
(
? ) - porque - claras frescas e doces são as águas ( ? )
